Observe a realidade tal como É. Assim terás força e capacidade de ação!
Toc toc

Permanência...

…contra o descartável

3 min de leitura

O descartável não é uma propriedade dos objetos. É uma disposição da alma — fabricada e vendida de volta a você. A obsolescência programada, o aparelho lacrado que não se conserta, a assinatura que não te deixa dono de nada: tudo isso treina a tratar todas as coisas como substituíveis — objetos, trabalho, compromissos, pessoas. O antídoto não é nostalgia. É recuperar o senso de permanência: escolher o que dura, o que se conserta e o que é de fato seu. Uma ferramenta que você pode abrir, reparar e guardar não é só economia — é uma escola de fidelidade.

O regime do descartável

A indústria descobriu que se ganha mais vendendo a falta do que a posse. Por isso o aparelho vem colado, com a bateria selada e a peça proprietária; por isso o “modelo novo” todo ano; por isso a migração do comprar para o assinar, em que você paga sempre e nunca possui. Han deu nome a esse mundo: as não-coisas — o objeto durável dissolvido em informação e serviço, a posse substituída pelo acesso. O que se perde não é só dinheiro. É a capacidade de cuidar e de manter. E um objeto descartável educa uma alma descartável: a que larga o trabalho, o compromisso e a pessoa assim que aparece o primeiro atrito.

O que a permanência ensina

Permanência é uma categoria do bem, não saudosismo. A tradição da permanência — em Gustavo Corção, por exemplo — denuncia o espírito moderno que dissolve o real estável em puro fluxo; defender o que dura é defender a solidez da realidade. Uma coisa que resiste ao tempo e pode ser consertada ensina fidelidade: você permanece com ela, remenda em vez de substituir. Há aqui uma lei discreta que Taleb chamou de efeito Lindy — o que já durou tende a durar; a durabilidade é sinal de robustez, não acaso. E a mesma palavra serve às coisas e ao caráter: as virtudes também são permanências, disposições estáveis que se firmam pela repetição. O objeto que se conserta é um pequeno catecismo do não abandonar o que ainda pode ser remendado.

O que escolher

Prefira o que se abre, se possui, se conserta e se guarda. Em vez do novo e lacrado, o usado e excelente. Em vez de assinar, possuir. Remende antes de descartar. O ThinkPad T480 é um emblema concreto dessa escolha: abre-se com poucos parafusos; memória, disco e bateria são trocáveis pelo próprio dono; troca-se a bateria externa sem desligar a máquina; roda software livre com folga; e, bem cuidado, atravessa uma década de trabalho. Não é o único objeto assim — é um exemplo límpido do princípio. Estenda o mesmo critério ao resto: às ferramentas, ao trabalho, aos compromissos. Guarde o que merece ser guardado.

Uma atenção livre precisa de algo digno onde pousar. A permanência é esse digno — e é por isso que ela abre, ao lado da atenção, o porquê de toda esta biblioteca.


Para aprofundar

  • Gustavo Corção e a tradição da permanência (permanencia.org.br).
  • Byung-Chul Han, Não-coisas — a posse substituída pelo acesso.
  • Nassim Taleb — o efeito Lindy e a robustez daquilo que perdura.

UMA SUBTRAÇÃO POR SEMANA

A biblioteca inteira está aqui, aberta, de graça, e vai continuar assim. Mas ler tudo de uma vez não muda nada. O que muda é tirar uma coisa por vez, na ordem certa — porque a ordem é o que separa arrumar a casa de apenas mudar os móveis de lugar.

Deixe seu e-mail e enviamos 12 subtrações, uma por semana. Cada uma leva menos de quinze minutos e remove do seu caminho algo que estava capturando você — começando pelo que custa menos e devolve mais.

Sem venda no meio, sem urgência fabricada, sem “últimas vagas”. Um clique cancela, e a política de privacidade diz exatamente o que fazemos com o seu email: mandamos isto, e nada mais.