Criação e queda
Criação e queda
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Duas perguntas antigas, e a fé responde às duas de uma vez: de onde vem tudo o que existe? E, se existe um Deus bom, de onde vem o mal? A resposta cristã não é um mito ingênuo nem uma resignação triste. É precisa — e explica muito da experiência que você tem de si mesmo.
Tudo o que existe é criado, e é bom
O mundo não é eterno nem acidental. Deus o criou livremente, do nada, não por precisar de coisa alguma — Ele já era pleno —, mas por bondade, para partilhar sua vida (CIC 293–294). E criou tudo bom: a matéria, o corpo, o mundo visível. O cristianismo nunca desprezou a matéria; foi acusado disso, mas crê no contrário — tanto que crê que o próprio Deus assumiria um corpo. No alto da criação visível está o ser humano, feito “à imagem de Deus” (CIC 355), único capaz de conhecer e amar o próprio Criador.
De onde vem o mal, então
“Deus é infinitamente bom e todas as suas obras são boas. Contudo, ninguém escapa à experiência do sofrimento e do mal… De onde vem o mal?” — o próprio Catecismo faz a pergunta (CIC 385), e não a esconde. A resposta: o mal não é uma coisa que Deus criou. É uma privação — o bem que deixou de estar onde deveria — e entrou no mundo por uma recusa livre.
A isso a fé chama a Queda. Numa linguagem figurada, mas que narra um acontecimento real no início da história humana, o homem, tentado, preferiu a si mesmo a Deus; perdeu a confiança em seu Criador e quis “ser como Deus” sem Deus (CIC 397–398). O nome disso é pecado original, e as consequências não ficaram no passado: transmitiu-se uma natureza humana ferida, inclinada ao mal — o que a tradição chama concupiscência (CIC 405).
Por que isto explica você
Aquela inquietação de que falamos, o desejo torto que puxa para o que se sabe que não presta, a distância entre o bem que você quer e o que de fato faz — nada disso é invenção de moralista. É a ferida. Reconhecê-la muda o jogo: o problema não é só “de fora” — o mundo, os outros, os algoritmos que exploram a fraqueza —, é também “de dentro”. E é justamente aí que entra o resto desta trilha, porque a Queda não é o fim da história. É o problema para o qual Cristo é a resposta.
O que fazer
- Encare a parte de dentro: onde, hoje, você repetiu o gesto de Adão — preferir a si mesmo, desconfiar do bem, querer no seu tempo o que só se recebe? Nomear é o começo de curar.
- Diante do mal que vem de fora e que você não escolheu, resista à conclusão fácil de que Deus é ausente ou culpado. A fé não explica todo sofrimento; aponta Quem entrou nele para vencê-lo.
Para aprofundar
- Catecismo da Igreja Católica, §§ 279—314 — a criação (vatican.va)
- Catecismo da Igreja Católica, §§ 385—412 — a queda e o pecado original (vatican.va)