Aridez e consolação
Aridez e consolação
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Quem começa a rezar a sério logo descobre que a vida espiritual tem clima — e ele muda. Há dias de consolação: luz, doçura, vontade de rezar, tudo parece fácil e próximo. E há dias, ou meses, de aridez: secura, tédio, sensação de vazio, Deus parecendo longe ou ausente. As duas estações são normais, e todo santo passou pelas duas. O perigo não é a aridez em si; é a conclusão errada que se tira dela.
O termômetro errado
O erro mais comum é medir a fé pelo que se sente. Nos dias de consolação, você se acha adiantado e quase se apega à doçura como se ela fosse o objetivo. Nos dias de aridez, conclui que fracassou, que Deus foi embora, que não adianta — e larga. Os dois enganos têm a mesma raiz: confundir Deus com o sentimento de Deus. Mas o sentimento é só o clima; a fé é o solo por baixo dele. Ama-se e serve-se a Deus na luz e no escuro igualmente — e a prova de que se busca a Ele, e não ao prazer que Ele às vezes dá, aparece justamente quando o prazer some.
O que fazer em cada estação
A sabedoria antiga é simples. Na consolação: agradeça, aproveite para criar bons hábitos — mas não se apegue ao doce nem se ache chegado; é presente, não troféu (foi o que ensinou João da Cruz). Na aridez: não faça mudanças grandes, não largue nada, não tome decisões movido pelo desânimo. Faça o que já fazia, com fidelidade nua. Lembre de Teresa de Calcutá, que serviu cinquenta anos no escuro. A aridez não é o fim do caminho — muitas vezes é onde ele mais sobe.
O que fazer
- Estabeleça um mínimo de oração que você mantém chova ou faça sol — cinco minutos fixos, todo dia. A fidelidade nos dias secos é o que faz a fé crescer raiz.
- Quando quiser largar tudo, espere: nunca decida abandonar a oração num dia de aridez. Decisões de desânimo quase sempre mentem.
Para aprofundar
- Catecismo da Igreja Católica, §§ 2729—2733 — as distrações e a secura na oração (vatican.va)