Os rostos do amor: eros e ágape
Os rostos do amor: eros e ágape
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Chamamos de “amor” coisas muito diferentes com a mesma palavra, e a confusão custa caro. Bento XVI, numa das suas encíclicas, foi buscar duas palavras gregas antigas para desfazer o nó: eros e ágape. Não são dois amores rivais, mas dois rostos de um só — e o nosso tempo, ao reter apenas um deles, mutilou o próprio amor sem perceber.
O desejo que sobe, o dom que desce
O eros é o amor que sobe: o desejo, a atração, o encantamento que puxa uma pessoa em direção à outra. É o fogo do começo, a paixão que faz o mundo parecer novo. Não há nada de sujo nele — é dom de Deus, a fagulha que aproxima. O ágape é o amor que desce: a entrega, o dom de si, querer o bem do outro mesmo quando não sobra nada a receber. É o amor que fica quando o fogo baixa, que cuida do doente, que perdoa, que permanece. “Eros e ágape — amor ascendente e amor descendente — nunca se deixam separar completamente um do outro”, escreveu Bento XVI. Um sem o outro adoece: o eros sozinho degenera em consumo do outro, uso disfarçado de paixão; o ágape sozinho esfria em dever gelado, obrigação sem calor. O amor conjugal inteiro precisa dos dois — o fogo do eros purificado e sustentado pela fidelidade do ágape.
Por que isto importa tanto hoje
Porque o nosso tempo reduziu o amor ao eros, e só a ele. “Amor” virou sinônimo de atração, de sentimento, do estar apaixonado. E, se o amor é o sentimento, então quando o sentimento esfria — e ele sempre esfria, é da sua natureza oscilar — a conclusão parece óbvia: “acabou o amor”. Larga-se, e procura-se o fogo em outro lugar, onde ele também há de esfriar, e assim por diante, numa fuga sem fim. O erro está na premissa. O sentimento não é o amor; é só o seu primeiro rosto. Quando o eros baixa, não é o fim do amor — é o convite para que o ágape entre em cena e o amor, enfim, cresça. Os casais que duram não são os que nunca deixam o fogo esfriar; são os que descobriram o segundo rosto quando o primeiro se apagou.
O que fazer
- Quando sentir que “esfriou”, não conclua que acabou. Pergunte-se se não é apenas o eros pedindo que o ágape assuma — e escolha, com atos concretos, o bem do outro, mesmo sem a vontade de antes.
- Alimente os dois rostos: cultive o desejo e o encanto (o eros não se sustenta sozinho, precisa de cuidado), e pratique o dom diário que não depende de sentir (o ágape que decide amar).
Para aprofundar
- Bento XVI, Deus Caritas Est, §§ 1—8 — eros e ágape, os dois rostos do amor (vatican.va)