Autoridade e liberdade
Autoridade e liberdade
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A época oferece aos pais uma escolha falsa entre dois fracassos. De um lado, o autoritarismo: regras sem amor, obediência arrancada pelo medo, o filho formado para temer em vez de compreender. De outro, o permissivismo: amor sem regras, o filho tratado como pequeno soberano cujos caprichos ninguém contraria. Parecem opostos, e são; mas têm em comum algo que quase ninguém nota — ambos são formas de os pais abdicarem. Um abdica do vínculo; o outro, da responsabilidade. E nenhum dos dois educa uma pessoa livre.
Limites não são o contrário de liberdade
O erro que sustenta o permissivismo é acreditar que os limites sufocam a liberdade da criança — que, quanto menos “não” ela ouvir, mais livre será. É o contrário. O filho que nunca ouve “não” não fica livre: fica escravo dos próprios impulsos, refém de qualquer vontade que lhe passe pela cabeça, incapaz de se governar. E — o que surpreende quem não convive com crianças — fica também secretamente angustiado. Uma criança sem limites sente que ninguém está no comando, e isso a apavora, porque o mundo fica grande demais para os ombros dela. Os limites, quando firmes e amorosos, são o andaime dentro do qual a liberdade cresce em segurança: dão à criança o chão de que ela precisa para, um dia, andar sozinha.
A autoridade a serviço
A autoridade dos pais, portanto, não é o oposto da liberdade do filho — é o que a serve e a forma. Mas só cumpre esse papel quando é do tipo certo: firme e calorosa ao mesmo tempo, com limites claros sustentados com afeto e explicados com razão, nunca impostos pelo puro grito. Autoridade não é autoritarismo, assim como liberdade não é libertinagem. O pai que só sabe mandar e o pai que não sabe dizer não falham pela mesma raiz: nenhum dos dois está formando um ser humano capaz de, no futuro, mandar em si mesmo.
Porque é este o segredo que dá sentido a tudo: toda autoridade dos pais existe para tornar-se, um dia, desnecessária. O objetivo não é a obediência pela obediência, mas formar alguém que interiorize o bem e passe a governar-se sozinho — que faça o certo não porque está sendo vigiado, mas porque se tornou o tipo de pessoa que faz o certo. A boa autoridade trabalha pela própria extinção: entrega ao mundo, ao fim, não uma criança obediente, mas um adulto livre — livre no único sentido que importa, o de ser senhor de si.
O que fazer
- Se você tende ao “não” fácil, pergunte-se se manda por bem do filho ou por comodidade sua. Se tende ao “sim” fácil, saiba que cada limite que você evita hoje por amor é um peso que joga sobre os ombros pequenos dele.
- Diante de cada regra que impõe, pergunte: isto forma nele a capacidade de se governar sozinho amanhã? A autoridade que não mira a própria extinção vira gaiola.
Para aprofundar
- Catecismo da Igreja Católica, §§ 2222—2223 — a autoridade dos pais a serviço da educação para a virtude e a liberdade (vatican.va)
- Concílio Vaticano II, Gravissimum Educationis, § 1 — a educação para a verdadeira liberdade (vatican.va)