Formar o coração
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Há uma camada da educação que vem antes de todas as regras e de todos os métodos, e que, quando falta, faz o resto ruir: a formação do coração. Dois psiquiatras católicos, Conrad Baars e Anna Terruwe, dedicaram a vida a estudá-la, e resumiram a sua descoberta numa palavra — afirmação. Antes de precisar ser corrigida, a criança precisa ser afirmada em seu ser: precisa sentir, na pele, que é bom que ela exista.
Ser amado antes de merecer
Afirmar, aqui, tem um sentido preciso. Não é elogiar o desempenho (“que nota boa!”), nem premiar o comportamento — isso é reação ao que a criança faz. Afirmar é acolher e alegrar-se com o que a criança é, antes e independentemente do que ela faz: é o olhar dos pais que diz, sem palavras, “que bom que você existe; eu me alegro que você seja”. Baars e Terruwe observaram que a pessoa afirmada assim, desde cedo, cresce segura, capaz de amar, em paz consigo. E que a pessoa nunca afirmada — apenas usada, ou criticada, ou até bem provida de coisas mas jamais acolhida com alegria, jamais recebida como um bem em si — carrega uma ferida que eles chamaram de privação afetiva: uma insegurança de fundo que nenhuma conquista, nenhum sucesso, nenhum acúmulo mais tarde consegue preencher. É a fome de quem nunca ouviu, no lugar certo e na hora certa, que era amado só por ser.
A psicologia secular chegou ao mesmo achado por outro caminho. A teoria do apego, de John Bowlby, mostrou empiricamente que a criança que tem uma presença amorosa e confiável a que sempre pode voltar — uma base segura — explora o mundo com coragem, enquanto a criança sem essa base vive na defensiva. Ciência e sabedoria cristã convergem: o ser humano se forma sendo amado primeiro. É a mesma verdade com que esta trilha começou — ninguém se torna pessoa sozinho; aprende-se a ser humano sendo amado antes de merecer.
Afirmar a pessoa, corrigir o gesto
Disto se tira a regra prática mais importante da educação afetiva, e a mais violada: afirmar sempre a pessoa; corrigir, quando preciso, o comportamento — e nunca confundir as duas coisas. A correção é necessária, e faz parte do amor; mas ela deve recair sobre o que a criança fez, jamais sobre o que ela é. “Isto que você fez foi errado” forma; “você é um inútil” fere, e a ferida fica. O filho precisa saber, com certeza inabalável, que é amado e querido mesmo quando é corrigido — que o “não” ao gesto nunca é um “não” à pessoa. Onde a correção comunica “você não é bem-vindo”, ela deforma em vez de formar. Onde repousa sobre um chão firme de afirmação, ela educa sem ferir.
O que fazer
- Todos os dias, afirme o ser do seu filho, não só o desempenho dele. Um olhar, um abraço, um “que bom que você existe” — dito de mil maneiras — vale mais para o coração dele do que qualquer elogio a nota ou a resultado.
- Ao corrigir, separe com cuidado a pessoa do ato: condene o gesto, nunca o filho. E deixe sempre claro, logo depois, que o amor não foi retirado. A correção só forma sobre o chão da afirmação.
Para aprofundar
- Conrad Baars e Anna Terruwe, Born Only Once: The Miracle of Affirmation — a afirmação e a privação afetiva
- John Bowlby, Apego — a teoria do apego e a base segura na infância