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Portas abertas

Portas abertas

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Há um perigo escondido na própria bondade da família: o de ela se fechar em si mesma. Uma casa feliz pode virar uma fortaleza — um pequeno reino de dois, ou de cinco, muralhado contra o mundo lá fora, cuidando com zelo apenas dos seus. Parece amor, e é uma forma sutil de egoísmo, só que a várias mãos. A Igreja doméstica é o contrário disso: um lar cujo calor não se acumula, transborda. Uma família de portas abertas.

O calor que transborda

O Catecismo lembra que a família cristã é chamada a viver a hospitalidade — a “cuidar e responsabilizar-se pelos jovens e pelos idosos, pelos doentes ou deficientes e pelos pobres” (CIC 2208). E a Escritura vai além, com uma promessa surpreendente: “não vos esqueçais da hospitalidade, pois, graças a ela, alguns, sem o saberem, hospedaram anjos” (Hebreus 13, 2). A família de portas abertas é aquela em que há sempre lugar a mais à mesa, em que o vizinho é acolhido, o amigo dos filhos é bem-vindo, o solitário encontra onde se sentar, o que passa por dificuldade encontra socorro. Não é preciso ser rico para isso; é preciso não ser fechado. A porta aberta é uma disposição do coração antes de ser um gesto.

Por que a família precisa disso

E isto não é só bom para quem é acolhido; é vital para quem acolhe. Uma família voltada só para dentro azeda, porque o amor que não se dá estagna, e o que estagna apodrece. As crianças criadas numa casa hospitaleira aprendem, sem lição, a verdade mais difícil de ensinar: que o amor não é um tesouro a guardar, mas um bem que só cresce quando se reparte. A abertura à vida, que faz a família crescer para dentro com os filhos, e a abertura ao próximo, que a faz crescer para fora com a hospitalidade, são o mesmo movimento: uma família que se dá. E é aqui que o arco desta parte da Biblioteca se completa — a atenção libertada das telas, ordenada a Deus na oração, vivida como amor dentro de casa, existe, no fim, para transbordar dela. O lar recebe para poder dar.

O que fazer

  • Abra a sua mesa. Convide, com regularidade, alguém de fora do núcleo — um solitário, um vizinho, quem precisa. A hospitalidade concreta ensina os seus filhos o que nenhum sermão ensina.
  • Combata a tentação de fazer da família uma fortaleza. Pergunte-se de vez em quando: a nossa casa cuida só de si, ou o nosso calor chega a alguém de fora? O amor que não transborda, azeda.

Para aprofundar

  • Catecismo da Igreja Católica, § 2208 — a família chamada a viver a hospitalidade e o cuidado dos mais frágeis (vatican.va)
  • Carta aos Hebreus, 13, 1—2 — a hospitalidade que, sem o saber, hospeda anjos

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