Quando falta um
Quando falta um
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Esta trilha descreveu a família a partir do seu desenho pleno: marido e mulher, filhos, o lar inteiro. Mas seria uma crueldade — e uma mentira — deixar de dizer o que agora é preciso dizer. Nem todo leitor tem essa família. Há o viúvo e a viúva, com a cadeira que não se preenche. Há o separado, o divorciado, o cônjuge que foi abandonado e não quis a ruptura. Há o pai e a mãe que criam sozinhos, fazendo o trabalho de dois. Há o casal que deseja filhos e não os consegue. Há a família rasgada pelo afastamento. A estes — que são muitos — esta seção precisa falar com clareza: a família ferida, incompleta, ainda é família, e ninguém está fora do amor de Deus, nem fora do caminho da santidade, por causa de uma casa que faltou pedaço.
O ideal é um norte, não um clube
É preciso desfazer um mal-entendido cruel. O ideal descrito nesta trilha é um norte pelo qual orientar a vida — não um clube fechado que exclui quem não chegou a ele. A Igreja, dizia o Papa Francisco, é como um hospital de campanha depois da batalha: existe para curar os feridos, não para conferir credenciais aos ilesos. Toda a força pastoral da Amoris Laetitia aponta nessa direção — acompanhar, e não condenar; aproximar-se de cada situação real com misericórdia. Deus, diz o Salmo, “está perto dos que têm o coração ferido” (Salmo 34, 19) — perto, e não distante à espera de que se conserte primeiro. Se a sua família não é a do desenho, isso não o coloca do lado de fora; muitas vezes o coloca exatamente onde a graça mais trabalha.
Uma palavra a cada um
Ao pai ou à mãe que cria os filhos sozinho: o que você faz é heroico, não menor. Uma família com um pai só continua sendo uma família inteira em dignidade, e Deus supre, com a Sua presença, a ausência que dói. Ao casal sem filhos, por esterilidade que não escolheram: o amor de vocês não é menos fecundo — pode transbordar na adoção, na paternidade espiritual, no serviço, no acolhimento de quem precisa; a fecundidade do amor é maior que a biologia. Ao cônjuge abandonado ou separado que se manteve fiel: a sua fidelidade não é em vão, e a sua dignidade não depende da escolha de quem partiu. Ao viúvo e à viúva: o amor não termina no túmulo, e a comunhão com quem partiu continua, de outro modo, viva. A ninguém a vida negou a possibilidade de amar e de ser santo ali onde está.
E uma última cautela, contra dois venenos. O primeiro é o desespero — a ideia de que, quebrada a família, acabou tudo; não acabou, e a graça reconstrói o que parecia perdido. O segundo é a comparação — o olhar invejoso para as famílias “perfeitas” dos outros, esquecendo que toda família carrega feridas que ninguém de fora vê. Não há casa sem cruz. A sua, com a sua falta, é o lugar concreto onde Deus o encontra — e é ali, não numa vida que você não tem, que a santidade o espera.
O que fazer
- Recuse a mentira de que a sua família “não conta” por ser incompleta ou ferida. Viva a santidade ali onde você está, com o que você tem — é exatamente aí que Deus o chama.
- Se você carrega uma dessas faltas, não a carregue sozinho: procure uma comunidade, um amigo firme, um padre, alguém a quem se ligar. E, se puder, seja você o acolhimento para outro que falta — a ferida partilhada pesa menos, e curar ajuda a curar-se.
Para aprofundar
- Papa Francisco, Amoris Laetitia — acompanhar, discernir e integrar as famílias feridas (vatican.va)
- São João Paulo II, Familiaris Consortio — a Igreja junto das situações familiares difíceis (vatican.va)