A arte de permanecer
A arte de permanecer
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Depois de saber o que o amor é, resta a pergunta mais prática de todas: como fazê-lo durar a vida inteira? Aqui a fé e a boa psicologia dizem a mesma coisa por caminhos diferentes. O casamento não naufraga, em regra, por um grande golpe súbito. Naufraga por erosão — pelo desgaste lento de mil pequenos descuidos que ninguém percebeu somar. E é por isso mesmo que ele também se salva no pequeno: na arte, humilde e diária, de permanecer.
O que corrói (e o que constrói)
O psicólogo John Gottman passou décadas observando casais e identificou quatro atitudes que, quando se instalam, preveem a ruína com assustadora precisão — ele as chamou de os quatro cavaleiros: a crítica que ataca a pessoa em vez do problema (“você é um egoísta”, em vez de “isto me magoou”); o desprezo — o pior de todos —, o sarcasmo e a humilhação que dizem ao outro “você vale menos”; a atitude defensiva, que nunca reconhece a própria parte; e a evasão, o muro de silêncio de quem se fecha e recusa o contato. Não são explosões dramáticas; são hábitos que se infiltram e vão matando o amor a frio.
E o que constrói é igualmente miúdo. Gottman notou que os casais que duram não são os que nunca brigam, mas os que atendem às pequenas “deixas” de conexão do dia a dia — o comentário casual, o pedido de atenção, a mão estendida —, voltando-se para o outro em vez de o ignorar. Dietrich von Hildebrand, o filósofo do amor fiel, diz o mesmo em outra chave: o amor conjugal não é um sentimento que se tem, é uma escolha que se renova todo dia. Espera-se em vão pelo sentimento nos dias em que ele não vem; o que não pode faltar é a decisão de amar, traduzida em atos pequenos e concretos.
O oxigênio: perdão e gratidão
Duas práticas sustentam todas as outras. A primeira é o perdão, o oxigênio de qualquer união que dure — porque dois pecadores debaixo do mesmo teto vão, com certeza, ferir-se, e o casamento não sobrevive à conta de mágoas que não se zera. Voltaremos a isso mais adiante, ao tratar do conflito e da reconciliação; por ora, basta saber que quem não perdoa todos os dias não permanece. A segunda é a gratidão deliberada — o antídoto exato do desprezo. Onde o desprezo cata defeitos para desdenhar, a gratidão cata motivos para admirar, e escolhe olhar para eles. Casais que cultivam o hábito de agradecer e reparar depois de cada atrito envelhecem juntos; os que deixam o desprezo crescer, não.
Permanecer, no fim, é menos uma emoção que se sente do que uma obra que se faz — de novo, todo dia, uma vez a mais do que se falhou. E, para o cristão, uma obra que não se faz só com as próprias forças: a graça do sacramento está aí exatamente para os dias em que amar cansa.
O que fazer
- Declare guerra ao desprezo. É o mais mortal dos quatro cavaleiros: corte o sarcasmo e a humilhação do seu vocabulário conjugal, mesmo em tom de brincadeira.
- Crie um hábito diário de gratidão dita em voz alta — uma coisa, todo dia, pela qual você admira ou agradece ao outro. E repare sempre depois de uma briga; nunca deixe o dia terminar com a conta aberta.
Para aprofundar
- John Gottman, Sete Princípios para o Casamento Dar Certo — os quatro cavaleiros e as pequenas deixas de conexão
- Dietrich von Hildebrand, O Matrimônio: o mistério do amor fiel — o amor conjugal como escolha renovada