O gênio da mulher
O gênio da mulher
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Duas mulheres pensaram este tema com uma profundidade rara, e não por fora: por dentro. Edith Stein — filósofa judia convertida, freira carmelita, morta em Auschwitz e hoje Santa Teresa Benedita da Cruz — dedicou ensaios inteiros à vocação da mulher. Alice von Hildebrand levou a reflexão ao nosso tempo. E São João Paulo II deu-lhe um nome que pegou: o gênio feminino. Vale ouvi-las, porque dizem algo que a época perdeu de vista.
Um dom voltado para a pessoa
O que Edith Stein observou é que há na mulher uma inclinação particular para o pessoal — para a pessoa concreta, inteira, viva à sua frente, e não apenas para a tarefa ou a ideia abstrata. Onde é fácil tratar o outro como função (“o cliente”, “o aluno”, “o caso”), a mulher tende a enxergar o alguém por trás da função, a acompanhar o ser humano em sua totalidade, a fazê-lo florescer. Não é sentimentalismo nem fraqueza para o raciocínio — Stein era uma das mentes filosóficas mais rigorosas do seu século. É um dom a mais: uma atenção ao que há de mais importante e mais facilmente esquecido, a pessoa. São João Paulo II chamou a isto o gênio feminino, e disse que à mulher é confiado, de um modo especial, o próprio ser humano.
O mundo precisa desesperadamente desse dom, e desesperadamente o despreza. Precisa dele porque toda a máquina do nosso tempo — inclusive a economia da atenção — corre no sentido contrário, tratando pessoas como dados, como números, como meios. E o despreza porque aprendeu a medir o valor pela produção, pelo poder, pela métrica — régua na qual o cuidado da pessoa concreta “não conta”. Assim se ensinou a gerações de mulheres que o que elas têm de mais próprio vale pouco, e que só serão dignas na medida em que imitarem o modo masculino de estar no mundo.
Não fazer da mulher um homem
É contra isso que Alice von Hildebrand escreveu O Privilégio de Ser Mulher. A tese é direta: um certo feminismo, com a intenção de libertar a mulher, acabou por humilhá-la — ao dizer-lhe que ela só teria valor imitando o homem, tratou como desprezível tudo o que nela é próprio. A verdadeira dignidade da mulher não é emprestada do homem; é dela, inteira, e não precisa de permissão para existir. Honrar a mulher não é, portanto, torná-la um homem de saias, medindo-a pela régua que não é a sua. É reconhecer, receber e agradecer o que só ela dá — e isso vale em toda parte, não apenas em casa: onde quer que entre, a mulher que traz consigo esse gênio humaniza o lugar.
Nada disto encolhe a mulher a um papel. Ela tem toda capacidade — intelectual, profissional, criadora — e a história dá-lhe testemunhas de sobra, a começar pela própria Edith Stein. O gênio feminino não é uma cerca que a prende à cozinha; é uma luz que ela leva a cada campo em que põe os pés, e que a torna insubstituível justamente onde o mundo mais a descarta.
O que fazer
- Se você é mulher, recuse a régua que lhe dizem ser a única: você não precisa imitar o modo masculino para valer. Cultive e leve a sério o seu dom próprio de atenção à pessoa — em casa e onde quer que trabalhe.
- Se você convive com mulheres — esposa, mãe, filhas, colegas —, aprenda a receber e nomear esse dom em vez de o tratar como fraqueza. O que elas veem e você não vê costuma ser exatamente o que faltava.
Para aprofundar
- Edith Stein (Santa Teresa Benedita da Cruz), A Mulher: sua missão segundo a natureza e a graça — a vocação própria da mulher
- São João Paulo II, Mulieris Dignitatem — a dignidade da mulher e o “gênio feminino” (vatican.va)