A vocação do homem
A vocação do homem
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Se há uma crise no lar moderno de que pouco se fala com franqueza, é a do homem. Não porque falte discurso sobre masculinidade — sobra —, mas porque o discurso oscila entre duas caricaturas igualmente estéreis. De um lado, o macho que confunde força com domínio, autoridade com grito, e trata a casa como território a mandar. De outro, e cada vez mais comum, o eterno adolescente: o homem que não cresce, não assume, não aparece — presente no endereço, ausente na vida. A visão cristã recusa as duas e aponta uma terceira, mais exigente e mais alta.
Autoridade que é serviço
O Novo Testamento diz aos maridos algo que, lido a sério, desmonta a caricatura do macho: “amai as vossas esposas, como também Cristo amou a Igreja e Se entregou por ela” (Efésios 5, 25). Repare no modelo. Cristo é a cabeça da Igreja — mas o modo como exerce essa condição é lavando pés e morrendo na cruz. A autoridade que o homem recebe na família é real, mas é deste tipo: serviço, não privilégio; responsabilidade de ser o primeiro a se sacrificar, não licença para ser servido. O pai é a cabeça no sentido em que a cabeça é a primeira a receber os golpes que protegem o corpo. Quem entende “chefe da casa” como o direito de mandar entendeu ao contrário; ser cabeça, aqui, é ser o que mais se gasta pelos outros.
O pai presente
E há a paternidade, que é o coração da vocação masculina. São João Paulo II, na Familiaris Consortio, escreveu sobre o homem como esposo e pai, e a cultura contemporânea comprova, pela ausência, tudo o que ele afirma pela presença. A ausência do pai — física, quando ele vai embora; ou emocional, quando fica de corpo mas nunca de alma — é uma das feridas mais subestimadas do nosso tempo. Ao contrário, a presença de um pai que está ali, que abençoa, que põe limites com firmeza e ternura, que provê e protege e reza, forma nos filhos algo que nada substitui: a segurança de que existe uma força do lado deles, e a imagem primeira daquilo que depois chamarão de Deus Pai. Um filho que teve um bom pai terrestre acredita mais facilmente num Pai celeste; a quem faltou, é preciso curar antes a palavra “pai”.
A vocação do homem hoje cabe, quase, em três verbos que a época desaprendeu: crescer — deixar a adolescência perpétua e assumir a vida adulta; aparecer — estar de fato presente, e não só no endereço; e doar-se — gastar a própria força pelos seus, à maneira de Cristo, em vez de a usar para dominá-los. Não é pouco, e não é para super-homens: é para homens comuns que decidem estar à altura do que lhes foi confiado.
O que fazer
- Se você é pai, faça o teste da presença: você está de corpo e de alma quando está em casa, ou o corpo chega e a mente fica na tela e no trabalho? A criança sente a diferença, e ela forma quem ela será.
- Meça a sua autoridade pelo serviço, não pelo mando. Pergunte-se onde você tem exigido ser servido em vez de ser o primeiro a se doar — e inverta, começando hoje.
Para aprofundar
- São João Paulo II, Familiaris Consortio — o homem como esposo e pai (vatican.va)
- Carta de São Paulo aos Efésios, 5, 21—33 — o amor dos esposos à imagem de Cristo e da Igreja