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Amor e responsabilidade

Amor e responsabilidade

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Antes de ser Papa, Karol Wojtyła foi professor de ética e escreveu um livro que atravessa esta seção inteira: Amor e Responsabilidade. A tese é simples de enunciar e difícil de viver: o oposto do amor não é o ódio. É o uso. E a fronteira entre amar alguém e usar alguém — fronteira que a paixão facilmente embaça — é a linha que separa uma vida de uma ruína.

A pessoa é sempre fim, nunca meio

Há uma diferença abissal entre uma pessoa e uma coisa. Uma coisa existe para ser usada — a caneta serve para escrever, o carro para levar. Uma pessoa, não. Uma pessoa é um alguém, um mundo interior, um ser querido por Deus, como diz o Concílio, “por si mesmo” (Gaudium et Spes 24). Por isso a única resposta à altura de uma pessoa é o amor — querer o bem dela por ela mesma — e nunca o uso, tratá-la como meio para o meu prazer, a minha vantagem, o meu conforto emocional. Este é o princípio que Wojtyła chamou de norma personalista: uma pessoa jamais pode ser reduzida a instrumento dos fins de outra.

O mais traiçoeiro é que o uso pode se vestir de amor. Posso dizer “eu te amo” e querer dizer apenas “você me faz sentir bem” — o que não é amá-la, é amar o que ela me dá. Enquanto ela me agradar, “amo”; quando parar, procuro outra fonte de agrado. Isso não é amor: é consumo de gente, e deixa atrás de si um rastro de pessoas descartadas como embalagens vazias. A atração e o desejo — o eros — são a matéria-prima boa; mas, deixados a si mesmos, tendem ao uso. O amor é o que faz com eles algo digno: integra o desejo sob a responsabilidade pela pessoa inteira.

Amar é responsabilizar-se

Daí o título do livro: amor e responsabilidade, indissociáveis. Amar alguém de verdade é assumir responsabilidade pelo bem dessa pessoa — inclusive pelo seu bem mais alto, o eterno. É por isso que o amor verdadeiro não tem pressa de possuir e não usa o outro pelo caminho: quem ama zela, protege, espera, e prefere o bem real do amado ao próprio apetite. A prova está sempre disponível a quem tiver a coragem de aplicá-la: neste gesto, nesta relação, estou buscando o bem desta pessoa — ou estou me servindo dela? A resposta honesta a essa pergunta é o começo de todo amor que vale a pena.

O que fazer

  • Faça a si mesmo, nas suas relações mais próximas, a pergunta de Wojtyła: estou amando esta pessoa, ou usando o que ela me dá? A honestidade aqui dói, e cura.
  • Assuma, em concreto, a responsabilidade pelo bem de quem você ama — inclusive quando isso contraria o seu desejo imediato. É aí que o uso vira amor.

Para aprofundar

  • Karol Wojtyła (São João Paulo II), Amor e Responsabilidade — a norma personalista e a diferença entre amar e usar
  • Concílio Vaticano II, Gaudium et Spes, § 24 — o homem “não se pode encontrar plenamente a não ser no sincero dom de si mesmo” (vatican.va)

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