A diferença que completa
A diferença que completa
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Se o erro é apagar a diferença ou transformá-la em guerra, a verdade é recebê-la como o que ela é: um dom feito para a complementaridade. Homem e mulher completam-se justamente porque são diferentes — e essa diferença, longe de ser um defeito a corrigir ou uma ameaça a neutralizar, é a condição de possibilidade do casal.
Dois modos de ser inteiro
A complementaridade não significa que cada um seja “metade” de uma pessoa, incompleto sozinho — isso seria rebaixar ambos. Homem e mulher são, cada um, pessoas inteiras, com dignidade plena. O que se completa não é a humanidade de cada um, que já é total, mas o modo de vivê-la: são duas maneiras inteiras e distintas de ser humano, e cada uma vê, sente e alcança o que à outra escapa. Onde um tende à firmeza, o outro à ternura; onde um foca, o outro abarca; onde um protege pela força, o outro protege pela presença. São generalizações, e como toda generalização admitem mil exceções — mas apontam para algo real: a diferença dos sexos não é só biológica, é um modo de estar no mundo, e o casal existe para que os dois modos se encontrem e se enriqueçam.
Por isso o Gênesis diz que a mulher é, para o homem, uma “auxiliar que lhe corresponde” — e a tradição sempre leu isso nos dois sentidos, pois também o homem é dado à mulher. Não “auxiliar” como subordinada, mas como aquela que está de frente, à altura dos olhos, e completa o que falta. O Catecismo resume: homem e mulher foram feitos “um para o outro”, não como se cada um fosse pela metade, mas para viverem uma “comunhão de pessoas” (CIC 372). A unidade do casal não apaga a diferença; funde os dois mantendo-os dois — e é a diferença que dá ao dom de si algo real a doar.
Contra a inveja dos sexos
O grande veneno da nossa época neste ponto é a inveja disfarçada de igualdade: a ideia de que ser igual em dignidade exige ser idêntico em tudo, de modo que qualquer diferença soa como desigualdade e precisa ser abolida. É um erro, e um erro que empobrece a todos — porque, ao exigir que a mulher seja valiosa apenas na medida em que imita o homem (e vice-versa), joga fora exatamente o que cada um tem de próprio a oferecer. A saída não é medir um pela régua do outro, mas honrar em cada um o dom que só ele traz. É disso que tratam os dois documentos seguintes.
O que fazer
- No seu casamento ou nas suas relações, pare de exigir que o outro sinta e reaja como você sentiria e reagiria. Trate a diferença de modo como riqueza a receber, não como falha a corrigir.
- Quando a diferença gerar atrito, pergunte-se se não é justamente ali que o outro está vendo algo que você não vê. Muitas brigas são, no fundo, duas visões verdadeiras e parciais que precisavam se somar.
Para aprofundar
- Catecismo da Igreja Católica, §§ 371—372 — o homem e a mulher feitos “um para o outro” (vatican.va)
- Dietrich von Hildebrand, Homem e Mulher: o amor e o sentido da intimidade — a diferença dos sexos como complementaridade