A cruz na família
A cruz na família
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Cedo ou tarde, ela chega a toda casa. A doença grave de quem se ama. A morte, que abre uma cadeira vazia à mesa. O filho que se afasta, da fé ou da família, e leva consigo o sono dos pais. A esterilidade que frustra um desejo profundo. A ruína, o vício, o adoecimento da mente. Nenhuma família atravessa a vida sem encontrar a sua cruz — e fingir o contrário só deixa despreparado quem a encontra. A pergunta é o que fazer com ela quando vem.
Nem negar, nem desesperar
O cristão recusa dois caminhos fáceis. Um é negar a cruz — o otimismo forçado que manda “pensar positivo” e não deixa ninguém sofrer o que precisa sofrer. O outro é desesperar — ler o sofrimento como prova de que Deus abandonou a casa, ou de que a família falhou. Entre a negação e o desespero há um terceiro caminho, mais difícil e mais real: carregar a cruz, de olhos abertos, sem que ela vire amargura. Duas luzes ajudam a andar por ele.
A primeira vem de um sobrevivente do inferno. Viktor Frankl, psiquiatra que passou pelos campos de concentração, descobriu ali que ao ser humano se pode tirar tudo, “exceto a última das liberdades humanas — a de escolher a própria atitude perante qualquer circunstância”. O sofrimento que não se pode evitar ainda pode ser carregado com dignidade e sentido — e muitas vezes é justamente ele que revela e aprofunda o amor de uma família, que só na provação descobre do que é feita. A segunda luz vai além do que Frankl podia ver. São João Paulo II, na Salvifici Doloris, ensina que o sofrimento unido à cruz de Cristo não é desperdício: torna-se fecundo, redentor, capaz de gerar bem onde parecia só haver perda. A dor de uma família que sofre com Deus não cai no vazio.
A cruz carregada junto
E aqui está o ponto decisivo, o que separa as famílias que a cruz forja das que ela parte: a cruz não quebra a família que a carrega junta — quebra a que a carrega dividida, cada um sofrendo sozinho e culpando o outro. Uma doença, um luto, um filho perdido podem soldar um casal num nível que os anos fáceis nunca alcançariam, ou podem estilhaçá-lo — e a diferença está, quase sempre, em carregar o peso lado a lado ou em costas separadas. É na cruz partilhada que o “na alegria e na tristeza” da aliança deixa de ser fórmula e vira carne. Aos pais do filho que se afastou, uma palavra a mais: não desesperem, e não parem de rezar nem de amar de porta aberta. O pai da parábola do filho pródigo não foi atrás — mas esperou, todos os dias, olhando a estrada. Muitos filhos voltam de longe. A esperança não é ingenuidade; é fidelidade.
O que fazer
- Quando a cruz vier, carreguem-na juntos e às claras. Não sofram cada um no seu canto: digam a dor um ao outro, chorem juntos, rezem juntos. A cruz partilhada une; a escondida separa.
- Ofereça o sofrimento que não pode evitar em vez de apenas suportá-lo — una-o à cruz de Cristo, por quem você ama. E, diante do filho que se afastou, mantenha a porta e a oração abertas; não desista da estrada.
Para aprofundar
- Viktor Frankl, Em Busca de Sentido — a última liberdade humana e o sentido no sofrimento
- São João Paulo II, Salvifici Doloris — o sentido cristão do sofrimento humano (vatican.va)