A festa e a celebração
A festa e a celebração
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Há uma forma de descanso que não consiste em parar nem em recolher-se, mas no oposto — em reunir-se, alegrar-se, celebrar: a festa. E é uma forma de descanso que a nossa época, curiosamente, também perdeu, apesar de todo o seu entretenimento. Porque festejar de verdade é diferente de se divertir; e a diferença diz muito sobre o que é uma vida cheia e o que é uma vida apenas ocupada.
A festa afirma que a vida é boa
Josef Pieper, que estudou a festa como estudou o ócio, chegou a uma conclusão profunda: no coração de toda festa verdadeira está uma afirmação — um “sim” alegre à vida, um dizer com o corpo inteiro que existir é bom, que vale a pena, que há razão para celebrar. Festeja-se porque algo é bom: um casamento, um nascimento, uma vitória, uma amizade, a própria vida. E é por isso que a festa tem, no fundo, uma raiz religiosa. Só festeja de verdade quem tem um motivo real para se alegrar — e o motivo último, aquele que sustenta todos os outros, é que a existência é um dom, que somos amados, que o mundo, apesar de tudo, é bom porque foi criado e é sustentado por um Deus que nos ama. Tire-se esse fundamento, e a festa fica sem chão: resta o entretenimento, que tenta produzir alegria sem ter motivo para ela, e por isso cansa e deixa vazio. A diversão distrai da vida; a festa celebra-a.
Não por acaso as maiores festas da humanidade sempre foram religiosas — as grandes celebrações do ano litúrgico, o Natal, a Páscoa, as festas dos santos, os casamentos abençoados. A fé é festiva por natureza, porque tem o maior de todos os motivos para celebrar: que Deus nos ama, que Cristo venceu a morte, que a vida não acaba. Um cristianismo triste é uma contradição; a alegria é, como dizia Chesterton, “o segredo gigantesco do cristão”.
Jesus e a festa
Vale lembrar, contra toda espiritualidade sombria, que o primeiro milagre de Jesus foi numa festa — e para que a festa não acabasse. Nas bodas de Caná, quando o vinho se esgotou e a celebração ameaçava murchar, Ele transformou água em vinho, e vinho em abundância e da melhor qualidade (Jo 2,1-11). Deus, feito homem, salvou uma festa de casamento. Jesus foi acusado pelos seus adversários de comer e beber demais, de frequentar banquetes, de não ser suficientemente austero — “veio o Filho do Homem, que come e bebe, e dizeis: eis um comilão e beberrão” (Lc 7,34). A alegria da mesa, do vinho, da festa partilhada não é mundana nem oposta à santidade; faz parte da vida boa que Deus quer para nós. O Céu, aliás, é descrito na Escritura como um banquete — a festa que não acaba.
Celebrar de verdade
Recuperar a festa como descanso pede, então, algumas coisas. Pede motivos para celebrar, e sabê-los reconhecer — os aniversários, as conquistas, as datas, os encontros, e sobretudo as festas da fé, que dão à vida um ritmo de celebração. Pede companhia, porque a festa é partilhada — não se festeja bem sozinho; a alegria cresce quando se reparte. Pede generosidade, porque a festa é do reino do dom, não do cálculo — a mesa farta, o convite largo, o gasto que não se contabiliza. E pede gratuidade — o tempo dado sem finalidade útil, só pela alegria de estar junto e celebrar. Uma família, uma comunidade, uma vida que sabe festejar de verdade — com motivo, com os outros, com generosidade — descansa de um modo que nenhum entretenimento solitário oferece. A mesa que reúne, o brinde, a celebração das datas da fé e da vida: é aí que o descanso vira alegria partilhada.
O que fazer
- Recupere o hábito de celebrar de verdade: marque e honre as festas — as da família e as da fé —, com companhia, mesa farta e gratuidade, sem as reduzir a mais um evento na agenda. Festejar é afirmar, junto com os outros, que a vida é boa.
- Não confunda entretenimento com festa: o primeiro distrai e deixa vazio; a segunda celebra e enche. Da próxima vez que quiser “relaxar”, pergunte se não seria melhor celebrar — reunir os seus, agradecer, alegrar-se por um motivo real.
Para aprofundar
- Josef Pieper, Uma Teoria da Festa (In Tune with the World) — a festa como afirmação alegre da bondade do mundo
- Evangelho segundo São João 2,1-11 — o primeiro milagre de Jesus, para que uma festa não acabasse