Acédia e esperança
Acédia e esperança
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Há um mal da alma que não é bem depressão, embora se pareça, e que a nossa época sofre em massa sem saber nomear. Os monges do deserto, há mil e seiscentos anos, conheciam-no bem e deram-lhe nome: acédia. É o tédio espiritual, o desgosto pelas coisas de Deus e do dever, a inquietação que faz querer estar em qualquer lugar menos onde se está, fazer qualquer coisa menos o que se deve. Chamavam-lhe “o demônio do meio-dia” — aquela hora em que o sol pesa, o trabalho arrasta e a alma, entediada, quer fugir. Reconhecê-la é meio caminho para vencê-la.
O demônio do meio-dia
O salmo fala de “flagelo que devasta ao meio-dia” (Sl 91,6), e os antigos leram nisso a figura da acédia. Evágrio e Cassiano, monges que estudaram a alma como poucos, descreveram-na com precisão que ainda hoje impressiona: o monge tomado pela acédia acha o dia interminável, olha a toda hora pela janela, sente aversão pelo lugar onde está e pela vida que escolheu, imagina que seria feliz em qualquer outro lugar, inventa mil pretextos para se levantar e sair, e é tentado, no fundo, a desistir — de tudo. Não é bem tristeza; é uma inquietação entediada, uma repugnância pelo esforço e pelo compromisso, um querer largar.
Troque o monge pelo homem moderno e a descrição é atualíssima. A acédia hoje veste-se de distração compulsiva: a incapacidade de ficar com uma coisa só, a fuga permanente para a tela, o tédio que salta de estímulo em estímulo sem pousar em nada, a sensação de que a vida verdadeira está sempre noutro lugar. É a acédia com wi-fi. E ela corrói tudo: o trabalho que não se termina, a oração que se abandona, o compromisso que se larga, a vida que se dispersa. Muita da nossa inquietação crônica, do nosso não conseguir estar presentes, é este velho demônio do meio-dia com roupa nova.
O remédio: permanecer
Os monges descobriram o remédio, e ele é desconcertante de tão simples: permanecer. Não fugir. A acédia diz “levanta-te e sai, vai para outro lugar, larga isto”; a cura é ficar — ficar na cela, ficar na tarefa, ficar no compromisso, ficar diante de Deus, atravessar o tédio sem lhe obedecer. “Fica na tua cela”, diziam os padres do deserto, “e a tua cela te ensinará tudo.” Porque a acédia é uma tentação de fuga, e toda fuga a alimenta; enquanto a permanência a esgota. Ao lado de permanecer, os antigos prescreviam o trabalho (as mãos ocupadas acalmam a alma inquieta), a rotina fiel (fazer o que se deve na hora certa, sinta-se ou não), e a oração perseverada mesmo sem gosto. É o oposto exato do que a acédia pede — e por isso funciona.
A virtude que a vence: a esperança
Mas por baixo de todos os remédios está uma virtude, e é a que a acédia mais ataca: a esperança. A acédia é, no fundo, uma tentação contra a esperança — o cansaço de quem, secretamente, já não crê que valha a pena, que o bem prometido chegará, que perseverar dá fruto. Por isso a esperança é o seu antídoto de raiz. Não a esperança como otimismo (“vai dar tudo certo”), mas a virtude teologal: a certeza firme, ancorada em Deus e não nos sentimentos, de que a promessa se cumprirá, de que a perseverança não é em vão, de que Aquele que começou em nós a boa obra a levará ao fim. A esperança permite atravessar o meio-dia entediado sem desistir, porque olha para além dele. Quem tem esperança permanece; e quem permanece, vence. A alegria volta — quase sempre volta —, mas quem espera por ela para permanecer nunca a reencontra; é permanecendo que ela se reencontra.
O que fazer
- Reconheça a acédia quando ela vier — o tédio inquieto, a vontade de largar, a fuga para a tela — e faça o contrário do que ela pede: permaneça. Fique na tarefa, no compromisso, diante de Deus. Não obedeça à voz que manda fugir.
- Combata-a com as armas antigas: a rotina fiel (fazer o que se deve na hora, sinta ou não), as mãos ocupadas, e a oração perseverada sem esperar o gosto. E peça a Deus a esperança, que é a virtude que sustenta quem permanece.
Para aprofundar
- João Cassiano, Instituições Cenobíticas, livro X — a descrição clássica da acédia e os seus remédios
- Catecismo da Igreja Católica, §§ 1817—1821 — a esperança, virtude que sustenta nos desânimos (vatican.va)