Justiça
Justiça
⏱ 4 min de leitura
Das quatro virtudes cardeais, a justiça é a única que olha inteiramente para fora de nós. A prudência aperfeiçoa a nossa razão, a fortaleza e a temperança domam as nossas paixões — todas trabalham dentro de casa. A justiça, não: ela regula a nossa relação com os outros, e por isso é a mais social das virtudes, a que constrói a convivência. A sua definição, herdada dos romanos e dos escolásticos, é de uma simplicidade cortante: dar a cada um o que lhe é devido. Justo é quem paga o que deve — e devemos muito mais do que costumamos lembrar.
Reconhecer o outro como credor
O ponto de partida da justiça é um reconhecimento humilde: o outro tem direitos, coisas que lhe são devidas em rigor, e não por minha generosidade. Isto arranca-nos do centro do mundo. O egoísta vê os outros como recursos ou obstáculos para os seus fins; o justo vê-os como pessoas a quem deve algo — respeito, verdade, o combinado, a dívida paga, a palavra cumprida. Josef Pieper notava que a justiça pressupõe sempre o reconhecimento do outro como outro, como um igual com quem existe uma relação de dívida. Onde esse reconhecimento falta, não há justiça possível, por mais leis que existam: há apenas força administrada.
E a lista de credores é longa. Devemos ao próximo o respeito, a honestidade, o que combinamos. Devemos à sociedade a nossa parte — o trabalho bem feito, o imposto honesto, o bem comum. Devemos aos pais e aos que nos formaram uma gratidão que nunca se salda por inteiro — a justiça chamada piedade filial. Devemos aos mortos a memória e o cumprimento da sua vontade. E devemos a Deus o reconhecimento e a adoração — a mais fundamental de todas as dívidas, chamada pelos antigos de “virtude da religião”, pois nada temos que não tenhamos recebido. A justiça, levada a sério, é uma vida inteira de dívidas reconhecidas e pagas.
A tradição distinguiu várias faces desta virtude, e conhecê-las afina a consciência. A justiça comutativa rege as trocas entre pessoas: o preço justo, o contrato cumprido, a reparação do dano — dar exatamente o equivalente. A justiça distributiva rege o que a comunidade deve a cada membro: a repartição equitativa dos bens, dos encargos e das oportunidades. E a justiça legal ou geral rege o que cada um deve ao todo: a contribuição de cada pessoa para o bem comum. Uma sociedade justa precisa das três; falha numa delas, adoece inteira. Mas todas repousam sobre o mesmo alicerce pessoal: homens e mulheres que, no seu dia a dia, pagam o que devem.
Justiça e algo mais
Há, por fim, uma verdade que a justiça sozinha revela por contraste. Ela é indispensável — sem justiça não há convivência —, mas não basta para uma vida plenamente humana. A justiça dá ao outro o que lhe é devido; o amor dá-lhe mais do que lhe é devido. Um mundo apenas justo, em que todos pagam exatamente o que devem e nada além, seria um mundo correto e frio. É por isso que a justiça, sendo o piso, não é o teto: sobre ela se ergue a caridade, que perdoa dívidas, dá de graça e ama sem calcular. Mas atenção à ordem: a caridade não dispensa a justiça — pelo contrário, a supõe. Não há amor verdadeiro que atropele a justiça; quem quer ser generoso deve, primeiro, ser justo. Dar esmola com dinheiro que não se pagou não é caridade: é injustiça com verniz.
O que fazer
- Faça o inventário das suas dívidas para além do dinheiro: o que você deve, em justiça, ao próximo, aos que o formaram, à sociedade, a Deus? Escolha uma dívida esquecida — uma palavra não cumprida, uma gratidão não expressa, um dever adiado — e salde-a esta semana.
- Antes de se congratular pela sua generosidade, verifique a base: você é justo? Paga o que deve, cumpre o combinado, dá ao outro o que lhe é devido? A caridade construída sobre a injustiça é falsa. Comece pelo piso.
Para aprofundar
- Josef Pieper, Justiça, em As Virtudes Fundamentais — dar a cada um o que lhe é devido
- Catecismo da Igreja Católica, § 1807 — a justiça, que consiste em dar a Deus e ao próximo o que lhes é devido (vatican.va)