O corpo, dom e templo
O corpo, dom e templo
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Esta trilha cuida de algo que muita gente religiosa despreza e muita gente moderna idolatra: o corpo. Entre os dois erros — o desprezo que o trata como estorvo da alma e a idolatria que o transforma em deus —, a fé cristã guarda uma verdade equilibrada e libertadora: o corpo é ao mesmo tempo um dom recebido de Deus e um templo habitado por Ele. Cuidar da saúde, portanto, não é vaidade nem materialismo; é honrar o que nos foi confiado. E é também condição para amar: quem não cuida de si mal poderá cuidar dos outros.
Não somos anjos nem bichos
O erro mais antigo é o desprezo do corpo. Vem de fora do cristianismo — dos gnósticos, dos maniqueus, de certas filosofias que viam a matéria como má e o corpo como uma prisão de que a alma deveria libertar-se. Esse erro infiltrou-se por vezes na sensibilidade cristã, gerando uma espiritualidade doentia que trata o corpo como inimigo. Mas a fé rejeita-o com firmeza. Deus criou a matéria e “viu que era boa”; criou o homem como unidade de corpo e alma, e não como uma alma aprisionada num corpo. “O corpo do homem participa da dignidade da imagem de Deus”, ensina o Catecismo (CIC 364). Não somos anjos disfarçados de gente; somos, por desígnio de Deus, seres encarnados — e a prova maior é que o próprio Deus se fez corpo em Cristo, e que a nossa esperança final não é a fuga da carne, mas a ressurreição dela. O corpo não é o cárcere da alma; é o seu companheiro e a sua expressão, destinado com ela à glória.
O erro oposto é o da nossa época: a idolatria do corpo. Numa cultura que perdeu a alma de vista, o corpo tornou-se o absoluto — cultuado no espelho, na academia, na dieta, na cirurgia, na obsessão pela juventude e pela aparência. Aqui o corpo deixa de ser dom e templo e vira ídolo, e como todo ídolo, escraviza: a ansiedade com a imagem, os transtornos alimentares, o desespero diante do envelhecimento. Divinizar o corpo é tão desumano quanto desprezá-lo — apenas de sinal trocado.
Dom e templo
A verdade cristã fica no meio, e é bela nas duas palavras. O corpo é dom: você não o fabricou nem o merece; recebeu-o, com a sua saúde, a sua força e os seus limites, das mãos de Deus, para dele cuidar como administrador — não como dono absoluto que dele faz o que quer, nem como inquilino desleixado que o arruína. E o corpo é templo: pelo Batismo, o Espírito Santo habita em você, e o seu corpo tornou-se morada de Deus (1 Cor 6,19). Cuidar dele ganha então uma dignidade sagrada — não pela vaidade de exibi-lo, mas pela reverência de o guardar como casa de Deus.
O que esta trilha percorre
Desta dupla verdade — dom e templo — decorre todo o cuidado equilibrado da saúde:
- 0 · O corpo, dom e templo — nem desprezo, nem idolatria (aqui).
- 1 · O cuidado do corpo — alimentação, movimento, sono, temperança.
- 2 · A saúde da mente — a alma também adoece, e também se cura.
- 3 · A vida e seus limites — o sofrimento, o envelhecer, o morrer bem.
- 4 · Testemunhas — médicos santos que uniram a ciência e a fé.
Esta é, com a Formação Humana e o Descanso, uma das trilhas que cuidam do homem inteiro. Comece por entender o que o corpo é: templo do Espírito.
Para aprofundar
- Catecismo da Igreja Católica, §§ 362—368 — a unidade de corpo e alma; a dignidade do corpo (vatican.va)
- Primeira Carta de São Paulo aos Coríntios 6,19-20 — o corpo, templo do Espírito Santo