Os sábios crentes
Os sábios crentes
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O mito de que a ciência afasta de Deus tem um problema incômodo: a fila dos maiores cientistas da história está cheia de crentes. Já vimos, ao falar de ciência e verdade, por que a fé e a razão não se contradizem. Aqui olhamos para os rostos que o provaram com a própria vida — homens que estiveram no cume do saber e, longe de perderem a fé por isso, encontraram nela a fonte do seu espanto diante do mundo.
Quatro entre muitos
Georges Lemaître foi um padre católico belga e um físico de primeira linha. Foi ele quem, nos anos 1920 e 1930, propôs que o universo teve um começo e está em expansão — a teoria hoje conhecida como Big Bang. Ou seja: a ideia de que o cosmos teve uma origem foi formulada por um sacerdote que dizia Missa todas as manhãs. E Lemaître era tão rigoroso na fé quanto na ciência: recusava-se a usar a sua teoria como “prova” de que Deus criou o mundo, porque respeitava demais os dois planos para os confundir. Ciência e fé, dizia, são dois caminhos para a verdade que não se devem misturar nem opor.
Gregor Mendel, frade agostiniano, passou anos a cruzar ervilhas no jardim do seu mosteiro na atual Chéquia. Desse trabalho paciente e humilde nasceram as leis da hereditariedade e, com elas, toda a ciência da genética. O pai da genética moderna era um religioso que via no estudo da vida uma forma de louvar o seu Autor.
Nicolau Steno, dinamarquês do século XVII, foi um dos fundadores da geologia e um pioneiro da anatomia — e, tendo-se convertido ao catolicismo, tornou-se depois bispo e viveu com tal santidade que a Igreja o beatificou. É provavelmente o único fundador de uma ciência natural que está a caminho dos altares: um beato que ensinou o mundo a ler as camadas das rochas.
Blaise Pascal, um dos maiores gênios que a humanidade produziu — matemático, físico, inventor de uma das primeiras calculadoras —, foi também um profundo homem de fé. Numa noite de 1654 teve uma experiência de Deus tão intensa que a registrou num papel que costurou no forro do casaco e trouxe junto ao peito até morrer: “Deus de Abraão, Deus de Isaac, Deus de Jacó — não dos filósofos e sábios. Certeza, certeza, alegria, paz.” O homem que fundou o cálculo das probabilidades ajoelhou-se diante do mistério.
O que estas vidas testemunham
A eles somam-se tantos outros — Ampère, Pasteur, Copérnico, os astrônomos jesuítas —, e o testemunho de todos é o mesmo, e vale para quem hoje trabalha com ciência, engenharia, tecnologia ou medicina: não há contradição alguma entre servir a verdade no laboratório e adorar a Verdade no altar. Pelo contrário, muitos destes homens diziam que quanto mais fundo entravam na ordem do universo, mais perto se sentiam do seu Autor. A ciência, feita com humildade, não fecha a porta do céu: entreabre-a. O universo é um livro de uma beleza e uma ordem espantosas, e quem o lê com atenção acaba, mais cedo ou mais tarde, a perguntar-se por Quem o escreveu.
Se você trabalha com ciência ou técnica, estes são os seus padroeiros. Eles provam que você pode ser inteiramente rigoroso e inteiramente crente — que a bata do laboratório e o joelho dobrado cabem na mesma vida, como couberam nas deles.
O que fazer
- Se lhe disserem que a ciência tornou a fé impossível, responda com nomes: Lemaître, Mendel, Steno, Pascal. A caricatura do cientista ateu não sobrevive à lista real dos maiores.
- Cultive, no seu trabalho científico ou técnico, o espanto de Pascal: não pare na explicação de um fenômeno; deixe a ordem e a beleza que você descobre conduzirem-no à admiração, e a admiração, à oração. Ler o livro do mundo é ouvir o seu Autor.
Para aprofundar
- As biografias de Georges Lemaître, Gregor Mendel, Beato Nicolau Steno e Blaise Pascal — fé e ciência numa só vida
- Blaise Pascal, Pensamentos — a razão que reconhece os seus limites e se abre a Deus