Os que descansaram em Deus
Os que descansaram em Deus
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Cada trilha desta Biblioteca terminou olhando para testemunhas — vidas em que a teoria se fez carne. A trilha do descanso não é exceção, e as suas testemunhas são as mais desconcertantes de todas para o nosso tempo: os contemplativos. Homens e mulheres que, em mosteiros e claustros, fizeram do estar aos pés de Deus não um momento da vida, mas a vida inteira. O mundo olha para eles sem entender, e muitas vezes chama-lhes inúteis. A fé sabe que escolheram a melhor parte.
Os “inúteis” que escolheram a melhor parte
Pense num mosteiro de clausura — beneditinos, carmelitas, cartuxos. Ali vivem pessoas que renunciaram a carreira, dinheiro, família, viagens, ao mundo inteiro, para se dedicarem quase só a isto: rezar, contemplar, adorar. Aos olhos da produtividade, é o cúmulo do desperdício — vidas inteiras “sem produzir nada”. E é exatamente aí que está o testemunho. Os contemplativos são a Maria de Betânia feita vocação permanente: escolheram, de modo radical e para sempre, sentar-se aos pés do Senhor e escutá-Lo, a “única coisa necessária”. Existem para lembrar ao mundo inteiro, que corre atrás de mil coisas úteis, que há uma que vale mais do que todas — e que o fim do homem não é produzir, mas amar e adorar a Deus, repousar n’Ele. São o dedo apontado para o cume de que fala esta trilha.
E, longe de serem inúteis, os contemplativos prestam ao mundo um dos maiores serviços que existem. Do silêncio dos seus claustros, sustentam a humanidade com a oração, como as raízes escondidas sustentam a árvore inteira. Não se veem, não aparecem, não produzem nada que se possa medir — e no entanto seguram, invisivelmente, muito mais do que imaginamos. Numa civilização inteiramente virada para o fazer, eles são a reserva viva do ser; num mundo de ruído, a reserva de silêncio; num tempo que esqueceu o descanso, a prova viva de que descansar em Deus é a coisa mais alta que um ser humano pode fazer.
Uma vocação que fala a todos
Poucos são chamados à clausura — mas o que os contemplativos vivem em tempo integral, todos somos chamados a viver em alguma medida. Cada cristão tem dentro de si uma Maria e uma Marta, e precisa das duas: a ativa que serve e a contemplativa que adora. Os monges e as monjas de clausura são, para o resto de nós, um lembrete encarnado e permanente de que a balança não pode pender só para Marta — de que, no meio de todo o nosso serviço necessário, temos de reservar um lugar para sentar-nos aos pés do Senhor. Eles guardam, pela humanidade inteira, a memória do descanso último, para que ninguém se esqueça de que é para ele que fomos feitos.
E foi um homem que conheceu de sobra a inquietação do mundo — a ambição, o prazer, a busca desenfreada — antes de encontrar esse descanso, quem escreveu a frase que abre a última porta desta Biblioteca. Santo Agostinho, depois de correr o mundo atrás de tudo, descobriu onde estava o repouso que procurara em vão por toda parte. E é para essa descoberta — o descanso que não acaba — que agora, enfim, esta trilha e todo este caminho desembocam.
O que fazer
- Deixe os contemplativos corrigirem em você o desprezo moderno pelo que “não produz”: reconheça que adorar a Deus e repousar n’Ele não é tempo perdido, mas a coisa mais alta que existe. Reserve, na sua vida ativa, um lugar fixo para a Maria que há em você.
- Reze pelos contemplativos e agradeça por eles — e, se puder, visite um mosteiro, faça um retiro no seu silêncio. Descubra, no seu modo de vida, o lembrete vivo daquilo para que todos fomos feitos: o descanso em Deus.
Para aprofundar
- Evangelho segundo São Lucas 10,38-42 — Maria aos pés do Senhor, imagem da vida contemplativa
- As vidas dos santos contemplativos — Teresa de Ávila, João da Cruz e a tradição da oração de repouso em Deus