Fazer e contemplar
Fazer e contemplar
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Faça um teste honesto: quando foi a última vez que você ficou uma hora sem fazer nada útil — sem trabalhar, sem produzir, sem “aproveitar o tempo” — e não se sentiu culpado? Se a resposta é difícil, é porque respiramos o ar de um mundo que Josef Pieper, filósofo católico alemão, descreveu com precisão: um mundo de trabalho total, onde o homem foi reduzido a trabalhador e já nem sabe existir de outro modo. Antes de falar do trabalho bom, esta trilha precisa de fazer uma advertência: o trabalho não é o todo da vida, e quem o trata como se fosse acaba por trabalhar mal.
O ócio não é preguiça
A palavra “ócio” soa mal aos nossos ouvidos — cheira a vadiagem, a tempo perdido. Mas Pieper, recuperando os antigos, distingue duas coisas que confundimos. Há a preguiça, que é a fuga do esforço devido — e essa é um vício. E há o ócio no sentido clássico: uma quietude atenta, uma abertura receptiva, o silêncio em que a alma para de fabricar e começa a receber. Não é o descanso que serve para voltar ao trabalho com as pilhas cheias — esse ainda é escravo do trabalho. É um repouso que vale por si: contemplar uma verdade, escutar uma música, rezar, olhar demoradamente para alguém amado, admirar a criação sem querer explorá-la. “O ócio”, escreve Pieper, “é a base da cultura.” Tudo o que há de mais alto no homem — a filosofia, a arte, a oração, a festa — nasce não do fazer, mas desta capacidade de parar e contemplar.
Duas maneiras de conhecer
Por trás disto há uma distinção antiga que vale a pena resgatar. Os medievais separavam a ratio — a razão que trabalha, que calcula, argumenta, resolve problemas passo a passo — do intellectus — a inteligência que simplesmente vê, que apreende a verdade num relance, como se recebe um dom. As duas são boas e ambas nos são necessárias. Mas a nossa época hipertrofiou a primeira e atrofiou a segunda: valorizamos só o pensamento que produz resultados, e desprezamos a contemplação que não “serve para nada”. Daí a antiga distinção entre as artes servis, ordenadas a um fim útil, e as artes liberais, chamadas assim precisamente porque são livres — buscadas por si mesmas, não por aquilo que rendem. Um povo que só sabe fazer, e já não sabe contemplar, é um povo rico de meios e pobre de fins: sabe fabricar tudo e não sabe para quê.
Você vale mais do que produz
E aqui está o motivo pelo qual esta advertência abre a trilha. Se o trabalho fosse tudo, a pessoa valeria pelo que produz — e o doente, o idoso, o desempregado, a criança, o contemplativo não valeriam quase nada. O Concílio corta isso pela raiz: “o homem vale mais pelo que é do que pelo que tem” (Gaudium et Spes 35). Você não é a sua produtividade. O seu valor não sobe nos meses de alto desempenho nem desce nas semanas de doença. É porque a pessoa vale mais do que produz que o trabalho tem sentido — ele é para a pessoa, e não a pessoa para ele. Quem inverte isso transforma o trabalho num ídolo que devora quem o serve.
Guarde, então, as duas asas com que se atravessa a vida: o fazer, que transforma o mundo, e o contemplar, que o recebe como dom. Uma trilha sobre o trabalho tem de começar defendendo a segunda, porque é a que a nossa época esquece — e sem ela até o melhor trabalho endurece o coração.
O que fazer
- Reserve, esta semana, um tempo sem finalidade útil: uma caminhada sem podcast, meia hora diante de algo belo, um domingo de verdade. Repare na resistência interior que sente — ela mostra o quanto o trabalho total já entrou em você.
- Antes de perguntar “o que eu faço?”, exercite a outra pergunta: “o que eu contemplo?”. Escolha uma coisa verdadeira, boa ou bela e demore-se nela sem querer extrair nada. É assim que se recupera a alma livre que depois vai trabalhar bem.
Para aprofundar
- Josef Pieper, O Ócio e a Vida Intelectual (Muße und Kult) — o ócio contemplativo como raiz da cultura
- Concílio Vaticano II, Gaudium et Spes, § 35 — o homem vale mais pelo que é do que pelo que tem (vatican.va)