A vocação profissional
A vocação profissional
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“Descubra a sua paixão e siga-a.” Poucos conselhos causaram tanta inquietação a tanta gente. Ele supõe que cada um traz dentro de si uma paixão pronta, esperando ser descoberta — e deixa milhões de pessoas angustiadas por não a encontrarem, saltando de emprego em emprego, sempre certas de que a relva do vizinho é mais verde. A tradição cristã, cruzada com um pouco de bom senso, oferece algo melhor e mais libertador: a ideia de vocação.
A paixão vem depois
Cal Newport, estudando gente que ama o que faz, derrubou o mito da paixão prévia. Quase ninguém, descobriu ele, começou apaixonado; a paixão cresceu à medida que a pessoa se tornou excelente naquilo e passou a servir os outros com a sua competência. O que ele chama de “mentalidade de artífice” inverte a pergunta: em vez de “este trabalho me satisfaz o suficiente?”, pergunte “como posso tornar-me tão bom nisto que a minha contribuição se torne rara e valiosa?”. A satisfação, o sentido, e sim, a paixão, tendem a seguir a maestria — a competência construída com foco — e não a precedê-la. Ame o trabalho tornando-se bom nele e útil por meio dele; não fique à espera de um sentimento que talvez nunca chegue sozinho.
Os talentos que se pede de volta
Aqui a fé aprofunda o que o bom senso começou. Jesus contou a parábola dos talentos (Mt 25,14-30): um senhor confia somas de dinheiro aos seus servos e parte; ao voltar, pede contas. Os que fizeram render o que receberam são louvados; o que enterrou o seu, por medo, é condenado — não por tê-lo perdido, mas por não o ter arriscado para dar fruto. A lição é direta: as suas capacidades, as suas oportunidades, a sua inteligência e a sua força são talentos confiados, não posses. Deus deu-os para render, e um dia perguntará o que você fez com eles. Enterrar o próprio talento — por medo, por preguiça, por comodismo — é a única coisa que a parábola condena. Trabalhar é, entre outras coisas, fazer render o que se recebeu.
O Catecismo lembra ainda que a desigualdade dos talentos entra no plano de Deus: Ele reparte dons diferentes “para que cada um partilhe com quem precisa dos que ele possui” (CIC 1937). Os seus dons não são só seus — são a sua parte na obra comum, aquilo que você deve aos outros. A vocação profissional é, no fundo, a resposta a uma pergunta dupla: o que eu recebi, e a quem sou chamado a servir com isso?
Onde a alegria encontra a fome do mundo
Como se discerne uma vocação, então? Não perseguindo um sentimento, mas cruzando três coisas: o que você é realmente capaz de fazer (os seus talentos), o que o mundo à sua volta precisa (a necessidade real), e o que serve ao bem dos outros. Onde as três se encontram, há vocação. O escritor Frederick Buechner disse-o de modo inesquecível: o lugar a que Deus o chama é o lugar onde “a sua alegria profunda encontra a fome profunda do mundo”. Não é onde você mais se realiza sozinho, nem onde você só se sacrifica sem alegria — é o cruzamento dos dois.
E quem não pôde escolher?
Uma palavra necessária, para não deixar este doc elitista. Muita gente não escolhe o seu trabalho: pega o que aparece, faz o que dá para pagar as contas, sustenta a família no que for preciso. A vocação não é privilégio de quem tem o luxo de escolher. Porque o chamado, no fundo, não é primeiro sobre qual trabalho, mas sobre como e para quem você o faz. O emprego que você não escolheu pode tornar-se vocação verdadeira no dia em que você o assume como lugar de servir, de crescer, de oferecer. A caixa de supermercado, a obra, a limpeza feitas com amor e por amor de alguém não valem menos, aos olhos de Deus, que a carreira mais brilhante escolhida a dedo. E por trás de toda vocação profissional há uma vocação mais funda, que nenhum currículo mede: a de tornar-se santo exatamente ali onde você está.
O que fazer
- Pare de esperar a paixão e adote a mentalidade de artífice: escolha algo útil que você possa fazer bem, e comprometa-se a tornar-se excelente nisso e a servir por meio disso. Repare como o gosto cresce junto com a competência.
- Faça o exame dos talentos enterrados: que dom seu — uma capacidade, uma oportunidade — anda parado por medo ou comodismo? Escolha um e ponha-o a render esta semana. Um dia haverá prestação de contas.
Para aprofundar
- Evangelho segundo São Mateus 25,14-30 — a parábola dos talentos confiados para render
- Catecismo da Igreja Católica, §§ 1936—1937 — a diversidade dos dons, ordenada à partilha (vatican.va)