Tornar-se plenamente humano
Tornar-se plenamente humano
⏱ 4 min de leitura
Chegamos ao fim de uma trilha que teve um só objetivo, declarado logo no começo: ajudá-lo a tornar-se quem você é — a dar forma à pedra em bruto que cada um recebe, até dela emergir a estátua. Vale, no encerramento, reunir a companhia que nos guiou e nomear o convite que fica.
Uma companhia de muitos saberes
Para formar o homem inteiro, pedimos ajuda a muitos campos, recorrendo, em cada um, a mestres católicos ou a autores que não contradizem a fé — e muitas vezes a iluminam. Da filosofia veio a doutrina das virtudes — Aristóteles, Tomás de Aquino, Josef Pieper — e a análise da liberdade que se conquista. Da psicologia, a compreensão do caráter e da maturidade emocional — os temperamentos, Baars e Terruwe, a afirmação que faz crescer. Da literatura — os clássicos, a nossa própria língua, portuguesa e brasileira —, a educação da imaginação moral e do gosto pela beleza. Da pedagogia, a arte de formar a mente sem apenas enchê-la, de Newman. E da teologia, a verdade que ordena tudo: que a graça aperfeiçoa a natureza, e que o homem plenamente vivo é a glória de Deus.
Por que cabem todos juntos
O que une saberes tão diversos — um filósofo grego, um psiquiatra do século XX, um poeta, um cardeal inglês, um santo mártir? Que todos, cada um do seu ângulo, buscaram a verdade sobre o que é um ser humano e como ele se torna plenamente aquilo que deve ser. E cabem juntos porque a verdade é uma só, e o Deus que a revela é o mesmo que criou a razão, a beleza e o coração humano. Buscá-la onde ela estiver — na Ética de um pagão, no romance de um cético lúcido, nos dados de um psicólogo, na oração de um santo —, recolhendo o ouro com discernimento, foi o método desta trilha e é o de toda esta Biblioteca.
O convite: comece a esculpir
E aqui a trilha se fecha, voltando ao começo. Dissemos, no primeiro doc, que ninguém nasce pronto — que a formação é a escultura paciente de si mesmo, e que a graça não anula essa natureza, mas a eleva. Percorremos as virtudes, a mente, o coração, o trato, e vimos, nas testemunhas, o alvo em carne e osso: homens inteiros, cultos e santos, virtuosos e alegres. Mas nada disto foi escrito para ser admirado de longe. As testemunhas não leram sobre a formação humana: esculpiram-se, dia a dia, com o cinzel na mão.
O convite final é, por isso, o mesmo de sempre nesta Biblioteca, e o mais simples: comece. Não tente formar-se todo de uma vez — isso paralisa. Escolha um ponto: uma virtude que lhe falta, um vício pequeno a cortar, um grande livro a ler, uma emoção a domar, um gesto de trato a recuperar. E trabalhe-o hoje, e amanhã, sabendo que a pedra vira estátua por repetição, e que Deus eleva o que você esforça por formar. Esta trilha é irmã da Saúde e do Descanso, que cuidam do mesmo homem por outras faces; e todas desembocam na vida com Deus, onde o homem plenamente formado se descobre, enfim, plenamente vivo. Tornar-se plenamente humano é a obra de uma vida — e a sua vez de começá-la é agora.
O que fazer
- Escolha um só ponto de formação — uma virtude, um livro, um defeito, um gesto — e comece a trabalhá-lo hoje, com repetição paciente. Não espere estar pronto para tudo; esculpe-se a pedra golpe a golpe, num ponto de cada vez.
- Faça da formação um caminho, não um projeto com prazo: continue a crescer a vida inteira, are o seu campo com todo o esforço, e confie a Deus o crescimento. O alvo — tornar-se plenamente humano, à imagem de Cristo — vale cada golpe do cinzel.
Para aprofundar
- As obras citadas ao longo desta trilha — de Aristóteles e Tomás de Aquino a Pieper, Newman, Chesterton e a grande literatura — como portas para aprofundar cada campo
- Concílio Vaticano II, Gaudium et Spes, § 22 — o homem que só em Cristo encontra a sua plena verdade (vatican.va)