A medicina como serviço
A medicina como serviço
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O cuidado do corpo inclui saber usar bem a arte de curar — e saber o que se pode esperar dela e o que não. A medicina é um dos maiores bens que a humanidade recebeu, e a fé cristã, longe de a desprezar, sempre a honrou como um dom de Deus. Mas a medicina, como toda técnica poderosa, precisa de uma bússola moral, sem a qual pode passar de serviço a abuso. Essa bússola é simples e exigente: servir a pessoa inteira, e nunca usá-la.
Um dom de Deus
Contra a ideia, às vezes presente entre os crentes, de que recorrer ao médico seria falta de fé (“Deus me cura, não preciso de remédio”), a Escritura é claríssima e bela. “Honra o médico pelos seus serviços, pois também a ele o Senhor o criou… A ciência do médico exalta a sua cabeça… O Senhor produziu da terra os medicamentos, e o homem sensato não os despreza” (Sir 38,1-4). Ou seja: a medicina, os remédios, a ciência que cura — tudo isso é querido por Deus, que pôs na natureza o poder de curar e na inteligência humana a capacidade de o descobrir. Buscar tratamento não é falta de confiança em Deus; é usar os meios que o próprio Deus nos deu. O crente reza e toma o remédio, confia em Deus e procura o médico — porque muitas vezes é através do médico e do remédio que Deus cura.
Não por acaso foi a Igreja que praticamente inventou o hospital como o conhecemos. No mundo antigo, o doente pobre era abandonado; foi o cristianismo, com o seu mandamento de cuidar do enfermo como se fosse o próprio Cristo (“estive doente e visitastes-me”), que criou instituições para acolher e tratar todos, sobretudo os que não podiam pagar. A longa história dos hospitais, das ordens religiosas dedicadas aos doentes, dos médicos e enfermeiros santos, é uma das mais belas do cristianismo — a caridade tornada ciência do cuidado.
Servir a pessoa, não usá-la
Mas a medicina tem um poder imenso sobre a vida e o corpo, e todo poder pode corromper-se. A sua bússola moral é o respeito absoluto pela dignidade da pessoa que se trata. A medicina serve quando cura, alivia, cuida, sempre tratando o doente como uma pessoa — um fim em si —, e não como um objeto, um caso, uma fonte de lucro ou uma cobaia. Corrompe-se quando passa a usar a pessoa: quando experimenta sem consentimento, quando trata o corpo como mercadoria, quando decide quais vidas valem a pena e quais não, quando mata em vez de curar. A mesma ciência que pode servir a vida pode voltar-se contra ela — e a história do século XX, com os seus médicos a serviço da morte, mostra o abismo em que cai a medicina que perde a bússola da dignidade humana. Curar o corpo respeitando a pessoa que o habita: aí está toda a diferença entre a medicina como serviço e a medicina como poder.
Para quem cura e para quem é cuidado
Para quem exerce a medicina — médicos, enfermeiros, todos os que cuidam —, isto faz do ofício uma verdadeira vocação, quase sacerdotal: tocar o corpo humano, que é templo, no momento da sua fragilidade, é um serviço sagrado. As testemunhas desta trilha — médicos santos que uniram a ciência e a fé — mostram que se pode ser um profissional de excelência e um servo de Cristo no mesmo gesto. E para quem é cuidado, há uma dupla atitude sã: usar a medicina com confiança e gratidão, sem a idolatrar como se pudesse tudo (ela não vence a morte, apenas a adia), e sem a desprezar como se a fé a dispensasse. Rezar e tratar-se; confiar em Deus e no médico que Ele nos dá.
O que fazer
- Abandone os dois extremos diante da medicina: nem o desprezo “de fé” que recusa tratar-se, nem a idolatria que espera dela o que só Deus dá. Cuide-se com os meios que Deus nos deu, com confiança e gratidão, rezando e tratando-se.
- Se você trabalha na saúde, recupere o sentido do seu ofício como serviço sagrado à pessoa inteira: por trás de cada caso há um templo do Espírito em sua hora de fragilidade. Trate-o como pessoa, nunca como objeto — é aí que a medicina é grande.
Para aprofundar
- Eclesiástico (Sirácida) 38,1-15 — “honra o médico, pois o Senhor o criou”; a medicina como dom de Deus
- Catecismo da Igreja Católica, § 2288 — o dever de cuidar da saúde com os meios devidos (vatican.va)