A vida é dom
A vida é dom
⏱ 4 min de leitura
Chegamos aos limites — ao sofrimento, ao envelhecer, ao morrer, as fronteiras que nenhum cuidado com a saúde consegue abolir. E antes de falar deles é preciso assentar a verdade que dá sentido a todos: a vida é dom. Não uma propriedade nossa, de que possamos dispor como bem entendemos; não uma conquista que mereçamos; mas um presente recebido, confiado à nossa responsabilidade, e sagrado do primeiro instante ao último. Essa única verdade muda tudo — o modo como olhamos a nossa vida, a dos outros e, sobretudo, a dos mais frágeis.
Recebida, não possuída
Ninguém se deu a vida a si mesmo. Você não decidiu nascer, não fabricou o próprio existir; recebeu-o. E o que se recebe de graça guarda a marca de quem o deu. João Paulo II, na encíclica Evangelium Vitae — o “Evangelho da Vida” —, exprime-o com beleza: “a vida que Deus dá ao homem é um dom pelo qual Deus participa algo de Si mesmo” (Evangelium Vitae 34); é “uma realidade sagrada que nos é confiada para a guardarmos com sentido de responsabilidade” (n. 2). Note as duas palavras: confiada e responsabilidade. A vida não é nossa como um objeto que possuímos e podemos destruir; é nossa como uma administração de que prestaremos contas. Somos guardiões da vida — da nossa e da dos outros —, não seus donos absolutos. Só Deus é Senhor da vida e da morte.
Sagrada em cada fase e em cada estado
Se a vida é dom de Deus, então ela é sagrada sempre e em todos — não apenas quando é jovem, saudável, produtiva ou desejada. Aqui está o ponto em que o Evangelho da Vida choca frontalmente com a mentalidade dominante, que João Paulo II chamou de “cultura da morte”: a mentalidade que mede o valor de uma vida pela sua utilidade, pela sua “qualidade”, pela sua conveniência — e que por isso descarta as vidas que julga não valerem a pena: o não nascido, o deficiente, o doente incurável, o idoso, o que “pesa”. Contra isso, a fé afirma sem exceção: toda vida humana tem o mesmo valor infinito, porque toda vem de Deus e leva a sua imagem. A criança no ventre, o deficiente profundo, o ancião que já não reconhece ninguém, o doente terminal — cada um tem exatamente a mesma dignidade sagrada do mais forte e mais brilhante dos homens. O valor de uma vida não sobe nem desce com a sua utilidade; foi dado por Deus, e é inviolável.
Isto tem uma consequência prática enorme e uma medida de qualquer sociedade: o modo como uma cultura trata os seus membros mais frágeis — os que nada produzem e nada podem retribuir — revela se ela ainda crê que a vida é dom, ou se já a reduziu a mercadoria. Onde a vida frágil é protegida e amada, há civilização; onde é descartada por inútil, há barbárie, por mais sofisticada que se apresente.
Guardar a vida — a própria e a dos outros
Reconhecer a vida como dom confiado gera deveres concretos. Sobre a própria vida: cuidá-la (é o que faz toda esta trilha), não a desperdiçar, não dispor dela como se fosse só nossa — porque não é. Sobre a vida dos outros: protegê-la, sobretudo a dos indefesos que não têm voz; acolher em vez de descartar; defender os que a cultura da morte quer eliminar por serem inconvenientes. E sobre a vida como um todo: uma atitude de fundo de reverência e gratidão — receber cada dia como presente, tratar cada pessoa como sagrada, viver como quem administra um bem precioso que não se deu a si mesmo. Quem vive assim, com os limites que vêm a seguir — o sofrimento, a velhice, a morte — já não os encara como absurdos a negar, mas como as fronteiras de um dom que, por vir de Deus, nem na morte se perde.
O que fazer
- Recupere a atitude de reverência diante da vida: comece o dia recebendo-o como dom, não como direito, e trate cada pessoa que encontrar — sobretudo a mais frágil — como portadora de uma dignidade sagrada que não depende da utilidade dela.
- Tome posição concreta pela vida dos indefesos: informe-se, defenda, acolha, apoie quem protege os que a “cultura do descarte” quer eliminar — o não nascido, o doente, o idoso. A medida de uma alma, como de uma sociedade, é como trata os que nada podem retribuir.
Para aprofundar
- São João Paulo II, Evangelium Vitae, §§ 2 e 34 — a vida como dom sagrado confiado à nossa responsabilidade (vatican.va)
- Catecismo da Igreja Católica, § 2258 — a vida humana é sagrada; só Deus é o seu Senhor (vatican.va)