A literatura portuguesa
A literatura portuguesa
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A formação da mente é universal, mas começa em casa — na própria língua. Quem fala português é herdeiro de uma das grandes literaturas do mundo, e muitas vezes a ignora, correndo atrás do estrangeiro sem conhecer o tesouro que tem à mão. Formar o gosto e o ouvido nos mestres da própria língua é um dever agradável: é aprender a pensar e a sentir com a máxima riqueza no idioma em que se reza, se ama e se vive. E a literatura portuguesa tem, no seu coração, uma profundidade católica que a torna especialmente nossa.
Camões: a língua ganha uma epopeia
No centro da tradição está Luís de Camões (1524-1580), e a sua obra maior, Os Lusíadas, é a epopeia que deu à língua portuguesa a sua estatura clássica — o poema das navegações, da coragem de um povo pequeno que se lançou ao mar desconhecido. Camões cantou a aventura dos descobrimentos com uma grandeza que rivaliza com Virgílio, mas guardou também, na figura do Velho do Restelo, a voz da prudência e da crítica, que adverte contra a glória vã e o custo humano da ambição — sinal de um poeta que via inteiro, e não só louvava. E não foi só épico: os seus sonetos e redondilhas estão entre a mais alta poesia amorosa e reflexiva da língua (“Amor é fogo que arde sem se ver”; “Alma minha gentil, que te partiste”). Ler Camões é ouvir o português no seu esplendor.
Vieira: o cume da prosa
Se Camões é o pico da poesia, o Padre António Vieira (1608-1697) é o da prosa — e é uma glória católica. Jesuíta nascido em Lisboa e criado na Bahia, Vieira foi o maior orador da língua portuguesa, e os seus Sermões são um monumento. No célebre Sermão de Santo António aos Peixes, pregado no Maranhão, usou uma alegoria genial — pregar aos peixes, já que os homens não ouviam — para repreender a ganância e a injustiça dos colonos. Missionário incansável, foi um defensor corajoso dos índios contra a escravização, num tempo em que isso custava caro. A sua prosa barroca, de uma arquitetura deslumbrante, une a mais alta arte à mais séria pregação do Evangelho. Vieira é a prova de que a fé, longe de empobrecer a palavra, pode levá-la ao seu ponto mais alto — e é, além disso, um elo entre Portugal e o Brasil, onde viveu e pregou boa parte da vida.
Sophia e os outros
Mais perto de nós, Sophia de Mello Breyner Andresen (1919-2004) devolveu à poesia portuguesa uma clareza luminosa e uma seriedade ética raras. Católica, cantou o mar, a luz, a justiça e a presença do sagrado nas coisas concretas do mundo, com uma limpidez que educa o olhar. É uma das provas modernas de que se pode ser poeta de primeira água e crente inteiro.
A tradição é vasta, e vale nomear mais alguns. Camilo Castelo Branco deu à língua o grande romance da paixão trágica (Amor de Perdição). Almeida Garrett tocou, no teatro (Frei Luís de Sousa), a fidelidade e a fé. Teixeira de Pascoaes cantou a saudade como quase uma mística. E há Fernando Pessoa (1888-1935), o maior mestre moderno da língua, cuja genialidade é inegável — mas cuja obra, marcada pelo esoterismo e pela fragmentação do eu em heterônimos, deve ler-se com discernimento, pois o seu mundo não é o da fé cristã. Mesmo o seu livro mais luminoso, Mensagem, mistura a grandeza da língua com um messianismo nacional que não é o Evangelho. Vale conhecê-lo — como se conhece um gigante —, recolhendo o ouro e examinando o resto.
O convite deste doc é simples: não seja estrangeiro na própria língua. Antes de dominar as literaturas de fora, conheça a sua — porque é nela que o seu ouvido se afina, o seu vocabulário se enriquece, a sua sensibilidade se forma no idioma que é o seu. E porque a tradição portuguesa oferece, em Vieira, em Camões, em Sophia, alimento de primeira ordem, com o bônus de uma profundidade católica que fala diretamente à nossa fé. Um brasileiro ou um português que nunca leu os seus clássicos é um herdeiro que não abriu o cofre que recebeu.
O que fazer
- Leia um sermão de Vieira — comece pelo Sermão de Santo António aos Peixes — e um punhado de sonetos de Camões. Deixe-se surpreender pela riqueza da própria língua; é herança sua, e está à mão.
- Escolha um poeta português do seu gosto — Sophia é um começo luminoso — e conviva com ele por um tempo. Formar o ouvido na própria língua afina tudo o mais que você vier a ler e a escrever.
Para aprofundar
- Padre António Vieira, Sermões (especialmente o Sermão de Santo António aos Peixes) — o cume da prosa portuguesa a serviço do Evangelho
- Luís de Camões, Os Lusíadas e a Lírica — a epopeia e a alta poesia da língua portuguesa