Temperança e vícios
Temperança e vícios
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O cuidado do corpo tem um capítulo em que se decide muito da liberdade de uma vida: a relação com aquilo que vicia. O álcool, o tabaco, as drogas — e, cada vez mais, os vícios “limpos” das telas, dos jogos, do açúcar, da pornografia — têm todos o mesmo padrão traiçoeiro: começam como prazer escolhido e acabam como senhor que comanda. A temperança, virtude que já conhecemos, é o que guarda a liberdade nesse terreno. E convém dizê-lo sem moralismo e sem ingenuidade.
O padrão do vício
Todo vício segue o mesmo roteiro. No começo, é um prazer que a pessoa controla: bebe quando quer, para quando quer. Aos poucos, a coisa inverte-se — o prazer diminui e a necessidade cresce, até chegar o ponto em que já não se bebe (ou fuma, ou usa, ou rola a tela) por prazer, mas porque não se consegue não fazer. A marca do vício é essa perda de comando: já não sou eu quem decide; a substância ou o hábito decidem por mim. É a escravidão de que falava toda a Formação Humana, na sua forma mais crua e química. E é por isso que os vícios são tão graves: não ferem só a saúde do corpo — roubam a liberdade, que é o mais precioso que temos depois da própria vida.
O Catecismo trata disto com equilíbrio. Não condena o uso moderado do que é lícito — um copo de vinho não é pecado, e a própria Escritura fala do vinho que “alegra o coração do homem”. O que condena é o excesso e a escravidão: a temperança pede que se evitem “todo tipo de excessos, o abuso da comida, do álcool, do tabaco e dos remédios” (CIC 2290), e é ainda mais severa com as drogas, cujo uso, fora de indicação médica, é “uma falta grave” porque destrói a saúde e a vida (CIC 2291). A diferença entre o uso e o vício é a liberdade: enquanto sou eu quem manda, uso; quando passa a mandar em mim, viciei-me.
Nem puritanismo, nem ingenuidade
Dois erros cercam este tema. O puritanismo demoniza o prazer em si, como se beber, comer bem ou gozar as coisas boas da vida fosse suspeito — e essa dureza, além de falsa, muitas vezes produz o efeito contrário, empurrando para o excesso o que foi reprimido sem medida. A fé não é puritana: Deus fez as coisas boas para serem gozadas com gratidão e medida. O erro oposto é a ingenuidade de quem acha que controla tudo, que “comigo não vicia”, que brinca com o fogo confiante demais. A prudência conhece a força do vício e a fraqueza da vontade humana ferida, e por isso não desafia a tentação de peito aberto: quem sabe que uma substância ou um hábito o domina faz melhor em evitá-lo por completo do que em medir-se com ele todos os dias. Para o escravizado, a única liberdade costuma ser a abstinência total — e não é fraqueza reconhecê-lo; é sabedoria.
A saída é possível — e raramente solitária
Uma palavra de esperança para quem está preso. O vício parece uma sentença, mas não é. A liberdade recupera-se — e quase nunca sozinho. Recupera-se com a graça de Deus, pedida na oração e recebida nos sacramentos, que cura o que a vontade não alcança; com a ajuda humana, porque quem tenta largar um vício sozinho e no segredo quase sempre recai — é preciso apoio, acompanhamento, muitas vezes tratamento e grupos; e com a remoção das ocasiões, tirando do próprio caminho aquilo que alimenta o vício. Ninguém deve ter vergonha de pedir ajuda para se libertar; a vergonha verdadeira seria continuar escravo por orgulho. Deus não despreza o viciado — despreza o vício que o escraviza, e quer, mais do que nós, a sua libertação.
O que fazer
- Faça o teste da liberdade nos seus prazeres: há algo — bebida, tela, açúcar, tabaco, pornografia — que você já não consegue não fazer? Se a resposta é sim, ali você não é livre, e é ali que a temperança precisa de trabalhar.
- Se um vício o domina, não lute sozinho nem por orgulho: peça ajuda — a Deus na oração e nos sacramentos, e a pessoas concretas (alguém de confiança, um grupo, um profissional). E remova a ocasião do seu caminho. A liberdade recupera-se; raramente em segredo e sozinho.
Para aprofundar
- Catecismo da Igreja Católica, §§ 2290—2291 — a temperança e a gravidade do uso de drogas (vatican.va)
- Os grupos de recuperação (como os Doze Passos) e o acompanhamento espiritual — a libertação que se faz com ajuda e com graça