Santificar o trabalho ordinário
Santificar o trabalho ordinário
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Durante muito tempo, um cristão comum poderia crer que a santidade era coisa para uma elite: monges, freiras, missionários — gente que largara o mundo. Aos demais, aos que trabalhavam num escritório, numa loja, numa lavoura, restaria uma vida religiosa de segunda categoria, feita de missas aos domingos e de resignação nos outros dias. Foi contra essa ideia que São Josemaría Escrivá gastou a vida, com uma insistência quase teimosa: a santidade não está fora do teu trabalho — está dentro dele. O ofício de cada dia não é o obstáculo à vida com Deus; é a sua matéria-prima.
A santidade escondida no comum
A intuição central de Escrivá era que a vida ordinária — o trabalho profissional, a família, as tarefas banais — é o lugar do encontro com Deus para a imensa maioria dos cristãos, que são leigos no meio do mundo. Deus, dizia ele, espera por nós “nas coisas mais materiais”: na bancada, no teclado, na cozinha, no volante. Não é preciso subir a uma montanha nem entrar num claustro para encontrá-Lo; é preciso trabalhar bem, ali onde se está, transformando o próprio ofício em oração e em serviço. A grandeza, ensinava, está no cotidiano: fazer com perfeição e por amor as pequenas coisas de cada dia. A isto chamou, com uma expressão feliz, “santificar a vida ordinária” — descobrir o extraordinário escondido dentro do ordinário.
Três verbos que resumem tudo
Escrivá condensou o seu ensinamento sobre o trabalho numa fórmula de três tempos, que é o próprio lema desta trilha, e que vale gravar:
Santificar o trabalho. Fazê-lo bem — com competência, honestidade, capricho no detalhe —, porque um trabalho malfeito não pode ser oferecido a Deus. A excelência de que falamos numa seção inteira encontra aqui o seu motivo último: trabalha-se bem porque o trabalho é para Deus.
Santificar-se no trabalho. Deixar que o próprio trabalho o torne santo — usando as suas contrariedades para crescer em paciência, os seus prazos para vencer a preguiça, o trato com colegas difíceis para exercitar a caridade. O trabalho é um ginásio de virtudes; quem o vive assim sai dele, todo dia, um pouco melhor.
Santificar os outros pelo trabalho. Servir, com o próprio ofício, o próximo concreto; e, pelo exemplo de um trabalho bem feito e de uma vida coerente, aproximar de Deus quem trabalha ao lado — sem sermão, quase sem palavras, pelo simples testemunho de quem trabalha de outro modo.
Nem beata, nem cínico
Este ensinamento corta ao meio dois erros comuns. Contra o cristão que separa a religião do trabalho — devoto na igreja, mundano no escritório —, Escrivá lembra que não há duas vidas, uma “espiritual” e outra “profissional”: há uma só vida, que deve ser inteiramente de Deus, também e sobretudo nas horas de trabalho. E contra o cristão que trabalha mal e se justifica com a piedade — “o que importa é a intenção” —, ele responde que a primeira forma de santificar o trabalho é fazê-lo bem, e que a mediocridade profissional não se cobre com jaculatórias. Santidade e competência, longe de se oporem, exigem-se uma à outra.
O mais libertador nisto tudo é que não muda o que você faz — muda como e para Quem. Você não precisa largar o seu emprego para buscar a santidade. Precisa levá-la para dentro dele.
O que fazer
- Aplique hoje os três verbos ao seu trabalho concreto: faça uma tarefa com esmero de propósito (santificar o trabalho); ofereça uma contrariedade em vez de resmungar por ela (santificar-se no trabalho); faça um bem discreto a um colega (santificar os outros).
- Derrube a divisão entre a sua “vida religiosa” e a sua “vida profissional”. Nesta semana, entre no trabalho não como quem sai da presença de Deus, mas como quem O leva consigo para dentro do expediente.
Para aprofundar
- São Josemaría Escrivá, É Cristo que passa e Amigos de Deus — santificar o trabalho, santificar-se no trabalho, santificar os outros
- Catecismo da Igreja Católica, § 2427 — o trabalho como meio de santificação no Espírito de Cristo (vatican.va)