G.K. Chesterton
G.K. Chesterton
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Faltava, entre as testemunhas, a alegria — e ninguém a encarnou melhor no século XX do que Gilbert Keith Chesterton (1874-1936). Jornalista prodigioso, poeta, romancista, autor dos contos do Padre Brown, mestre do paradoxo, convertido ao catolicismo em 1922, Chesterton foi um gigante de corpo (mais de cento e trinta quilos) e de espírito — e a sua principal lição sobre a formação humana é a mais inesperada e a mais necessária: que o homem plenamente formado não é o sisudo nem o amargo, mas o que reencontrou o espanto e a gratidão diante do simples milagre de existir.
O espanto diante do comum
A grande descoberta de Chesterton foi que o mundo comum é extraordinário, e que só perdemos de vista esse fato por excesso de hábito. Uma árvore, um poste, o fato de haver algo em vez de nada — tudo isso é assombroso, se o olharmos como se o víssemos pela primeira vez. As crianças sabem-no; os adultos esquecem-no, e o esquecimento é uma forma de morte da alma. Chesterton passou a vida a reacender esse espanto: a lembrar que nada é banal, que a existência é um dom gratuito e imenso, e que a resposta certa a esse dom é a gratidão. “O pior momento para o ateu”, disse ele, “é quando se sente verdadeiramente grato e não tem a quem agradecer.” A gratidão, para Chesterton, era a raiz de toda a felicidade e o começo da fé — porque quem sente que a vida é um presente acaba, mais cedo ou mais tarde, a procurar Quem lho deu.
Esta é uma peça que faltava à formação humana e que Chesterton repõe: de que serve formar a mente, as virtudes e o coração, se se perde a capacidade de maravilhar-se? O homem culto e virtuoso mas incapaz de espanto e de gratidão é um homem murcho. A alegria não é um extra dispensável da vida bem formada; é o seu perfume, o sinal de que ela está viva.
A alegria como coisa séria
Chesterton combateu, com o riso, a ideia de que a seriedade é a marca da profundidade. É fácil ser pesado, dizia ele; ser leve é que é difícil — os anjos voam porque se levam de leve. Contra a melancolia elegante que a modernidade admira, ele afirmava que a alegria é a coisa “gigantesca e secreta” do cristão, a verdade fundamental do universo. E vivia-o: era um homem genuinamente feliz, divertido, generoso, sem inimigos pessoais mesmo entre os seus adversários de debate — discutia ferozmente as ideias e amava as pessoas. Nisto está uma lição fina de formação: a maturidade não endurece, amacia; o homem verdadeiramente formado não fica mais azedo com os anos, fica mais grato, mais capaz de rir de si mesmo, mais leve.
O defensor do homem comum
Há ainda em Chesterton uma nobreza que completa o retrato: a defesa apaixonada do homem comum, da família, das coisas pequenas e ordinárias contra os poderes que as ameaçam — os mesmos temas que atravessam a trilha da Família. Desconfiava dos grandes esquemas, dos peritos que querem reorganizar a humanidade de cima, das modas intelectuais que desprezam o bom senso do povo. Defendia a propriedade espalhada por muitos, a casa, o quintal, a cerveja, a família, o direito do homem simples de ser dono da própria vida. A sua era uma sabedoria robusta e terrena, cheia de bom senso — a prova de que a mais alta cultura não precisa desprezar as alegrias comuns, mas pode defendê-las como sagradas.
Chesterton não é santo de altar — a Igreja não abriu a sua causa. Mas é uma das grandes testemunhas modernas de que a fé cristã, longe de apequenar o homem, o torna mais vivo, mais grato e mais alegre. É o retrato do homem plenamente formado que ri.
O que fazer
- Recupere o espanto: escolha uma coisa comuníssima — uma árvore, o rosto de alguém, o fato de existir algo em vez de nada — e olhe-a como se fosse a primeira vez. Deixe o assombro virar gratidão, e a gratidão procurar a Quem agradecer.
- Trate a alegria como coisa séria da vida formada, não como frivolidade. Cultive a leveza, o bom humor, a capacidade de rir de si mesmo. Um sinal seguro de que você amadurece bem é ficar mais grato e mais leve com o tempo — não mais azedo.
Para aprofundar
- G.K. Chesterton, Ortodoxia — o espanto, a gratidão e a alegria como caminho para a fé
- G.K. Chesterton, O Homem Eterno — a visão do humano e do cristão que ajudou a converter C.S. Lewis