A literatura brasileira
A literatura brasileira
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A literatura brasileira é jovem — pouco mais de dois séculos como literatura própria —, mas alcançou, em pouco tempo, uma riqueza que poucos países igualam. Para um leitor brasileiro, conhecê-la é um dever de formação tão grande quanto o de ler os clássicos universais: é aqui que a sua própria terra, a sua língua no seu sotaque, a sua alma coletiva se dizem. E há, nela, tanto o mais lúcido conhecedor do coração humano quanto uma linhagem de poetas em que a fé católica floresce com beleza rara.
Machado: o anatomista da alma
No topo está Machado de Assis (1839-1908) — mulato, pobre, autodidata, epilético, e ainda assim o maior escritor que o Brasil produziu. Machado é o grande anatomista da alma humana em língua portuguesa: ninguém dissecou como ele a vaidade, o autoengano, o ciúme, a pequenez que se esconde por trás das boas maneiras. Dom Casmurro, com a dúvida eterna sobre Capitu, é uma obra-prima sobre como o ciúme fabrica as suas próprias provas; Memórias Póstumas de Brás Cubas, narrado por um defunto, é uma das mais originais e irônicas visões da futilidade humana já escritas. Machado não era religioso, e o seu olhar é o de um cético melancólico — mas é justamente por isso um espelho impiedoso da nossa miséria, que se lê com proveito e discernimento. Ele mostra o homem sem Deus e sem ilusões; cabe ao leitor cristão reconhecer, nesse retrato exato da vaidade, aquilo de que só a graça salva.
Guimarães Rosa: o sertão e o mistério
Se Machado é o cético lúcido, João Guimarães Rosa (1908-1967) é o gigante metafísico. O seu Grande Sertão: Veredas — narrado na voz do jagunço Riobaldo, numa língua reinventada, musical, criada quase do zero — é uma das maiores obras da literatura em qualquer idioma. E o seu tema último é religioso: a pergunta que atravessa todo o livro é se o diabo existe, se Deus existe, se o homem pode vender a alma. “O diabo não há! É o que eu digo, se for… Existe é homem humano. Travessia.” Rosa transformou o sertão brasileiro num palco cósmico onde se joga a batalha entre o bem e o mal, e fez da própria língua portuguesa um instrumento novo. Lê-lo é difícil e é uma das grandes experiências que a nossa literatura oferece.
A linhagem do sagrado
E aqui está o tesouro que muitos brasileiros desconhecem: uma linhagem de escritores em que a fé católica é a própria matéria da arte.
Adélia Prado (nascida em 1935), poeta mineira, é talvez a maior voz católica da poesia brasileira viva. A sua obra — Bagagem, O Coração Disparado — descobre o sagrado encarnado no mais concreto e doméstico: o corpo, a cozinha, o desejo, a louça, tudo atravessado pela presença de Deus. “A matéria da minha poesia”, disse ela, “é Deus”. Ninguém uniu tão bem a carne e o Céu, o cotidiano de uma mulher comum e a transcendência.
Ariano Suassuna (1927-2014) deu voz à alma católica e popular do Nordeste. O seu Auto da Compadecida é uma obra-prima: no juízo final do malandro João Grilo, é Nossa Senhora — a “Compadecida”, a que se compadece — quem intercede, e a misericórdia vence a justiça. Suassuna fez da fé simples do povo nordestino, com os seus santos, os seus milagres e o seu humor, matéria de alta arte.
E há os poetas convertidos do modernismo: Jorge de Lima (1893-1953), autor da Túnica Inconsútil, que pôs o seu enorme talento a serviço da poesia religiosa; e Murilo Mendes (1901-1975), cuja poesia católica é das mais originais do século. Ambos provam que o modernismo brasileiro teve, ao lado dos seus experimentos, uma alma profundamente crente.
A lista poderia seguir — Cecília Meireles e a sua lírica espiritual, o crítico católico Alceu Amoroso Lima, e tantos outros. Mas já se vê o essencial: a literatura brasileira não é só profana e cética; tem um coração católico batendo forte, e é seu por herança.
O que fazer
- Se você é brasileiro e nunca leu Machado a sério, comece por Dom Casmurro — e leia-o como um espelho da alma humana, com o discernimento de quem sabe o que o cético não vê. Depois, arrisque-se em Guimarães Rosa.
- Conheça a linhagem católica da nossa literatura: leia um livro de poemas de Adélia Prado e o Auto da Compadecida de Suassuna. Descubra que a fé, na sua própria terra e língua, produziu beleza de primeira ordem.
Para aprofundar
- Adélia Prado, Bagagem e O Coração Disparado — o sagrado encarnado no cotidiano; “a matéria da minha poesia é Deus”
- Ariano Suassuna, Auto da Compadecida — a misericórdia de Nossa Senhora na alma católica do Nordeste