Os clássicos universais
Os clássicos universais
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Chama-se clássico ao livro que não passa — que, escrito há séculos ou milênios, continua a dizer algo verdadeiro sobre o ser humano a cada nova geração que o abre. Os clássicos universais são o patrimônio comum da humanidade, a grande conversa que as melhores mentes travam através dos tempos sobre o amor, a morte, o poder, a culpa, o perdão, Deus. Frequentá-los é uma das formas mais ricas de formação humana, porque eles ensinam pela experiência vivida — fazem-nos sentir o que significa ser homem em mil circunstâncias — o que nenhum tratado ensina pela via da pura ideia.
Por que ler também os pagãos e os que não creem
Uma objeção surge logo, e é justo enfrentá-la: por que um católico haveria de ler Homero, que era pagão, ou Dostoiévski, que era ortodoxo, ou autores que não partilham a fé? A resposta é antiga e tem o peso de Santo Agostinho, que a formulou com a imagem dos “despojos do Egito”: assim como os hebreus, ao saírem da escravidão, levaram consigo o ouro dos egípcios para o pôr ao serviço do verdadeiro Deus, também o cristão recolhe, onde quer que a encontre, toda verdade e toda beleza, porque tudo o que é verdadeiro pertence a Deus. A verdade sobre o coração humano não é propriedade dos crentes; um pagão pode tê-la visto com uma clareza que nos ilumina. Ler os grandes livros com discernimento — recolhendo o ouro, deixando a escória — é um exercício de inteligência madura, não uma ameaça à fé. Uma fé que só suporta ler quem já concorda com ela é uma fé insegura; a fé robusta dialoga com toda a grandeza humana sem medo.
Uma pequena biblioteca essencial
Onde começar? Uma vida não basta para os clássicos todos, mas alguns são portas maiores que outras.
Na raiz de tudo estão os gregos e latinos: Homero, com a Ilíada e a Odisseia, a cólera, a guerra e o longo regresso a casa; a tragédia grega de Sófocles, sobre o destino e a culpa; e Virgílio, cuja Eneida respira uma nobreza tão pura que a Idade Média o via como uma alma quase cristã — não por acaso Dante o escolheu para seu guia.
No cume da literatura cristã está Dante Alighieri, cuja Divina Comédia é a própria fé feita poema: a descida ao Inferno, a subida do Purgatório, a visão do Paraíso — o mapa mais grandioso já traçado da alma diante de Deus. Se houvesse um só clássico a ler, muitos apontariam para ele.
Depois, os grandes romancistas da alma: Cervantes e o seu Dom Quixote, o riso e a melancolia do idealista num mundo prosaico; Manzoni e Os Noivos, obra-prima católica sobre a Providência que conduz a história; e sobretudo Fiódor Dostoiévski — Crime e Castigo, Os Irmãos Karamázov —, talvez o mais profundo explorador do bem e do mal, da culpa e da graça, que a literatura já produziu. Ao seu lado, Liev Tolstói, cujos Guerra e Paz e Anna Kariénina retratam a vida humana com uma amplitude sem par (ainda que as suas ideias religiosas tardias devam ler-se com reserva). E Sigrid Undset, convertida ao catolicismo, cuja Kristin Lavransdatter acompanha uma vida inteira de mulher, pecado e redenção, na Noruega medieval.
E o século XX católico deu mestres que valem toda a leitura: Georges Bernanos (Diário de um Pároco de Aldeia), Flannery O’Connor, Evelyn Waugh (Reviver o Passado em Brideshead), J.R.R. Tolkien e C.S. Lewis — prova de que a grande literatura cristã não é coisa só do passado.
O fruto dessa companhia é discreto e imenso. Os clássicos formam aquilo a que se poderia chamar a imaginação moral: ao viver, através deles, mil vidas que não são a nossa — o assassino atormentado, a adúltera, o santo, o traidor, o pai que perdoa —, aprendemos a compreender o coração humano por dentro, a ter compaixão, a reconhecer em nós mesmos o bem e o mal que vemos nas personagens. A literatura amplia a alma, ensina a sentir com os outros, afina o juízo moral de um modo que nenhuma lista de regras alcança. Quem convive com os grandes livros torna-se, quase sem perceber, mais humano — mais capaz de entender, de perdoar, de amar. É uma educação do coração, feita pela beleza.
O que fazer
- Escolha um clássico que você sempre adiou — Dante, Dostoiévski, Manzoni, quem for — e comprometa-se a lê-lo este ano, devagar. Não o leia por dever cultural, mas para deixar que ele o forme; um só grande livro bem lido muda mais do que dez atravessados.
- Leia com discernimento, à maneira dos despojos do Egito: recolha o ouro da verdade e da beleza que encontrar, e examine à luz da fé o que houver de escória. Ler assim é sinal de fé madura, não de ameaça a ela.
Para aprofundar
- Santo Agostinho, A Doutrina Cristã, livro II — os “despojos do Egito”: recolher a verdade onde quer que ela esteja
- Dante Alighieri, A Divina Comédia — a fé cristã feita a maior das viagens poéticas da alma