Formar-se a vida inteira
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Há uma tentação que espreita quem leva a formação a sério: a de achar que, a certa altura, se “chegou”. Que já se é maduro, virtuoso, formado — e que agora se pode descansar do trabalho sobre si mesmo. É uma ilusão perigosa, e a marca segura de que, na verdade, ainda se está longe. Porque a formação humana não tem diploma final: é obra de uma vida inteira, e só se completa do outro lado da morte.
Ninguém chega
Os que mais avançaram foram sempre os que mais se sabiam a caminho. Os santos, no fim da vida, não se achavam santos — achavam-se pecadores que precisavam ainda de conversão, e é justamente essa consciência que os fazia crescer até o último dia. Quem se julga chegado parou; e quem parou, na vida do espírito como na do corpo, começa a decair, porque aqui não há repouso neutro: ou se cresce, ou se recua. Sempre há uma camada mais funda do caráter por formar, uma virtude ainda frágil, uma ferida por curar, um egoísmo mais sutil a desalojar. A Igreja chama a isto a necessidade da conversão contínua, de cada dia (CIC 1428) — não a grande conversão inicial só, mas o voltar-se para Deus e para o bem repetido a vida toda, sempre um pouco mais fundo.
Isto guarda-nos de dois enganos. Do orgulho de quem se compara com os piores e se acha pronto — a formação verdadeira torna mais humilde, não mais satisfeito, porque quem sobe vê melhor o quanto ainda falta. E do desânimo de quem, vendo o quanto falta, quer desistir — pois o alvo não é chegar à perfeição amanhã, mas crescer hoje um pouco mais do que ontem. Não se pede que você esteja pronto; pede-se que esteja a caminho.
A alegria de crescer sempre
E aqui está a boa notícia escondida nesta verdade aparentemente severa. Nunca estar pronto poderia soar como uma condenação — um trabalho sem fim. É o contrário: é a garantia de que a vida nunca fica sem sentido nem sem horizonte. Enquanto houver vida, há mais a viver, mais a amar, mais a tornar-se. A pessoa que para de se formar apaga-se, entedia-se, envelhece por dentro por mais nova que seja. A que continua a crescer — a aprender, a lutar contra os próprios defeitos, a amar mais, a aproximar-se de Deus — permanece viva até ao fim, e muitas vezes mais viva na velhice do que na juventude. Formar-se a vida inteira não é um fardo: é o segredo de uma vida que não envelhece na parte que importa.
E há um termo para esse crescimento, que lhe dá descanso sem lhe tirar o movimento. Toda esta formação, sempre inacabada aqui, será completada por Deus na eternidade, quando O virmos face a face e formos, enfim, plenamente aquilo que fomos feitos para ser. A obra que começamos com o nosso esforço, e que a graça vai elevando, Deus a levará à perfeição do outro lado. Aqui, caminhamos e crescemos; lá, chegaremos. Por isso se pode trabalhar sem angústia: o esforço é nosso, mas a chegada é d’Ele, e é certa para quem persevera.
Formados, então, olhemos para os que já percorreram este caminho — não teóricos da humanidade plena, mas homens que a viveram. É a hora das testemunhas.
O que fazer
- Mate a ilusão de ter “chegado”: identifique uma área em que você secretamente se acha pronto e pergunte-se, com honestidade, o que ainda falta ali. Quem se sabe a caminho continua a crescer; quem se acha chegado começa a decair.
- Faça da formação um hábito de vida, não um projeto com prazo: escolha continuar a crescer — a ler, a lutar contra um defeito, a amar mais — sem esperar o dia de estar pronto. E confie a Deus a chegada, para poder caminhar sem angústia.
Para aprofundar
- Catecismo da Igreja Católica, §§ 1427—1429 — a conversão contínua, tarefa de toda a vida cristã (vatican.va)
- Santo Agostinho, Confissões — a inquietude do coração que só descansa quando chega a Deus