A empresa e o lucro a serviço
A empresa e o lucro a serviço
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Há dois erros gêmeos sobre a empresa, e a Doutrina Social recusa ambos. Um é o ressentimento que vê no empresário um explorador e no lucro um roubo — herança do socialismo, que só sabe suspeitar de quem produz riqueza. O outro é a ideologia que reduz a empresa a uma máquina de maximizar lucro, sem nenhum dever para além do dividendo. Contra os dois, a Igreja afirma algo mais alto: empreender é uma vocação, e o lucro é um meio a serviço de um fim que o transcende.
Empreender é nobre
Comecemos por defender o empresário, porque a nossa época raramente o faz. Quem funda e conduz uma empresa honesta realiza um bem enorme: cria postos de trabalho onde antes não havia, organiza o esforço de muitos, transforma ideia em produto útil, e gera a riqueza sem a qual não há salário, imposto, hospital nem escola. João Paulo II reconheceu, na Centesimus Annus, o papel da iniciativa, da criatividade e do risco — e lembrou que, hoje, o principal recurso econômico é o próprio homem: o seu saber, a sua capacidade de organização, a sua criatividade. O empreendedor que arrisca o seu para criar trabalho e servir necessidades reais faz obra de bem comum, e merece respeito, não suspeita.
O lucro é meio, não fim
Dito isto, vem a correção decisiva, e ela está numa frase que todo empresário cristão deveria ter na parede. Na Centesimus Annus, João Paulo II ensina que o objetivo da empresa “não é simplesmente o lucro, mas sim a própria existência da empresa como comunidade de homens que, de diversas maneiras, procuram a satisfação das suas necessidades fundamentais”; e que “o lucro é um regulador da vida da empresa, mas não o único” (Centesimus Annus 35). A empresa é, antes de tudo, uma comunidade de pessoas — os que nela trabalham, os que ela serve, os que dela dependem. O lucro é vital, como a respiração é vital: sinal de saúde, condição de sobrevivência, meio para crescer e durar. Mas ninguém vive para respirar. Uma empresa que faz do lucro o seu único fim inverteu a ordem — e, mais cedo ou mais tarde, passa a tratar os trabalhadores como custos, os clientes como alvos e o mundo como matéria a espremer.
A vocação do líder empresarial
O documento A Vocação do Líder Empresarial, do Vaticano, resume bem o que se espera de quem dirige um negócio à luz da fé, em três tarefas. Primeira: produzir bens que sejam realmente bons e serviços que atendam a necessidades verdadeiras — não vender o inútil ou o nocivo só porque dá lucro. Segunda: organizar um trabalho bom, digno e produtivo, em que as pessoas cresçam e não se degradem. Terceira: gerar riqueza de modo sustentável e distribuí-la com justiça — entre os que a produziram, os que investiram, e a comunidade. Quem cumpre estas três serve a Deus dirigindo uma empresa tão verdadeiramente quanto outros O servem no altar ou no hospital. O escritório e a fábrica são lugar de santidade, não apesar do negócio, mas através dele.
Para quem trabalha na empresa — de qualquer lado
Isto interpela os dois lados. Para quem dirige: as pessoas confiadas a você não são recursos a otimizar, são o próprio propósito da coisa; lucre, sim, mas para servir, e não às custas de quem serve. E para quem é dirigido: a empresa não é um inimigo a sabotar nem um estranho a quem se rende o mínimo — é uma comunidade da qual você é membro, e à qual deve trabalho honesto e leal. Nem a ganância do patrão que esquece as pessoas, nem o ressentimento do empregado que trai a obra comum: entre os dois, a empresa como aquilo que ela é na melhor luz — um lugar onde muitos, juntos, servem uns aos outros e ganham a vida com dignidade.
O que fazer
- Se você dirige ou empreende, submeta uma decisão importante ao teste das três tarefas: o que produzo é realmente bom? O trabalho que organizo dignifica quem o faz? A riqueza que gero é repartida com justiça? Corrija o que não passar no teste.
- Se você trabalha para alguém, recupere o senso de pertença: a empresa é uma comunidade da qual você é membro, não um adversário. Dê-lhe o trabalho honesto que a justiça pede — e cobre dela, com serenidade, o respeito que a você é devido.
Para aprofundar
- São João Paulo II, Centesimus Annus, § 35 — a empresa como comunidade de pessoas; o lucro como meio (vatican.va)
- Dicastério para o Serviço do Desenvolvimento Humano Integral, A Vocação do Líder Empresarial — as tarefas do empresário cristão