Educar o coração
Educar o coração
⏱ 3 min de leitura
Formamos a mente, formamos as virtudes — falta formar o coração, essa parte de nós que sente, deseja, teme, alegra-se, enraivece-se, ama. As emoções e paixões são, talvez, a dimensão pior compreendida da vida humana, e é aqui que a nossa época mais oscila entre dois erros opostos. Uns querem esmagá-las, como se sentir fosse fraqueza. Outros divinizam-nas, fazendo do “siga o seu coração” a regra suprema. A sabedoria cristã recusa as duas coisas e propõe uma terceira: educar o coração.
Nem esmagar, nem obedecer
O primeiro erro é o do frio — o estoico, o puritano, o que acha que a perfeição está em não sentir nada, em matar as paixões, em ser todo razão e vontade sem afeto. Mas isto não é virtude; é mutilação. As emoções são parte boa da natureza que Deus nos deu — o próprio Jesus chorou diante do túmulo do amigo, indignou-se no Templo, angustiou-se no Getsêmani. Sentir profundamente não é sub-humano nem sub-cristão; é humano. Uma alma sem afeto não é uma alma dominada, é uma alma amputada.
O segundo erro é o oposto, e é o da nossa época: fazer das emoções o senhor. “Sinto, logo é verdade.” “Se o meu coração pede, deve estar certo.” “Ninguém pode julgar o que eu sinto.” Aqui a emoção destrona a razão e a vontade e passa a governar — e o resultado é uma vida à deriva, escrava do humor do momento, incapaz de fidelidade a qualquer coisa que exija ir contra o que se sente agora. Quem obedece a todo sentimento é tão escravo quanto quem obedece a todo apetite; apenas troca a tirania do corpo pela do humor.
Ordenar, não reprimir
O caminho é a integração. As paixões, ensina a tradição, não são boas nem más em si mesmas — tornam-se boas ou más conforme sejam ordenadas ou não pela razão e pela vontade (CIC 1767). O objetivo não é a ausência de emoção (a apatia), mas a emoção ordenada: sentir a coisa certa, na hora certa, na medida certa. Indignar-se com a injustiça — e não com o trânsito. Temer o que é realmente perigoso — e não a opinião alheia. Desejar o que é bom — e desejá-lo com força. A perfeição, dizia São Tomás, não está em o homem ser movido ao bem só pela vontade seca, mas em que também o seu afeto, a sua emoção, o incline ao bem (CIC 1770). O ideal não é o coração morto nem o coração solto: é o coração afinado, como um instrumento, que vibra na nota certa.
Isto é obra de uma vida, e é o assunto desta seção. Passa pelo domínio de si, que dá à vontade o comando; pela maturidade emocional, que aprende a reconhecer e integrar o que se sente; pela amizade, escola dos afetos; e pelo trato, onde o coração formado se traduz em gestos. Comece pelo alicerce: o domínio de si.
O que fazer
- Observe, esta semana, a que erro você tende: a reprimir o que sente (o frio) ou a ser governado por isso (o escravo do humor). Nomear a sua inclinação é o primeiro passo para afinar o coração em vez de o matar ou de lhe obedecer.
- Da próxima vez que uma emoção forte o dominar, não a reprima nem a obedeça: nomeie-a (“estou com raiva”, “estou com medo”), pergunte se ela é justa e na medida, e só então decida o que fazer. Entre o sentir e o agir, ponha a razão.
Para aprofundar
- Catecismo da Igreja Católica, §§ 1762—1770 — as paixões humanas e a sua integração pela razão e pela vontade (vatican.va)
- Santo Tomás de Aquino, Suma Teológica I-II, qq. 22-48 — o tratado das paixões, ordenadas e não suprimidas