Temperança
Temperança
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A quarta virtude cardeal é a menos aplaudida da nossa época — e talvez, por isso mesmo, a de que mais precisamos. A temperança é o domínio sobre os próprios apetites: a comida, a bebida, o prazer, o conforto, tudo aquilo que atrai por dentro com uma força que, deixada solta, escraviza. Num tempo que ergueu a satisfação imediata em ideal de vida, falar de temperança soa quase ofensivo. Mas basta olhar em volta — e para dentro — para ver o preço da sua ausência: gente comandada pelos próprios desejos, incapaz de dizer “não” a si mesma, e por isso profundamente infeliz.
Não é repressão, é ordem
Corrijamos logo o mal-entendido. A temperança não despreza o prazer nem o considera mau — isso seria um erro que a fé rejeita, porque os prazeres do corpo são bons, dados por Deus. A temperança não reprime o apetite; ela o ordena. Põe cada desejo no seu lugar, na sua medida, a serviço do bem da pessoa inteira. O intemperante não é quem gosta demais de comer ou de beber; é quem não manda no próprio gosto — quem come quando não devia, o que não devia, mais do que devia, porque o apetite decide por ele. A temperança devolve o comando: faz do apetite um bom servo, que serve nas horas certas, em vez de um senhor tirânico. É a diferença entre desfrutar de uma taça de vinho e ser bebido por ela.
Josef Pieper via na temperança uma virtude voltada para dentro, que ordena o próprio eu — e notava que, sem ela, a pessoa se dispersa e se destrói a si mesma. Os desejos desregrados não trazem mais prazer; trazem menos, porque o excesso embota e escraviza. Quem tudo se permite acaba não gozando de nada: o glutão perde o paladar, o devasso perde o amor, o viciado perde a própria liberdade. A temperança, longe de ser inimiga da alegria, é a sua guardiã — protege a capacidade de desfrutar, que o excesso corrói.
A virtude que liberta
Aqui está o paradoxo que a torna preciosa. A temperança parece limitar, e na verdade liberta. Quem é dono do próprio apetite é um homem livre: pode ter ou não ter, comer ou jejuar, e em nenhum dos casos perde a paz. Quem não é dono está sempre à mercê — do próximo prato, do próximo copo, da próxima compra, do próximo prazer —, um escravo bem alimentado que se acha livre porque pode obedecer aos seus impulsos. A independência interior que a temperança dá é uma das formas mais concretas da liberdade: a de não precisar. E ela tem um efeito colateral admirável — quem domina os apetites do corpo ganha uma clareza de mente e uma firmeza de vontade que se derramam sobre tudo o mais. Não é por acaso que a temperança é a base natural da saúde do corpo e da alma, e por isso ela reaparecerá, com outro nome, na trilha da Saúde.
A temperança forma-se de um modo simples e exigente: pequenos “nãos” voluntários. Não a repressão sombria, mas o treino sereno de negar a si mesmo, de vez em quando, um prazer legítimo — a segunda porção, a sobremesa, o comprar por impulso, o conforto excessivo —, não porque sejam maus, mas para provar a si mesmo que você manda neles, e não eles em você. É o que a tradição chama de mortificação, palavra assustadora para uma coisa saudável: pequenos exercícios de domínio que mantêm o apetite em forma de servo. Quem nunca se nega nada, ainda que legítimo, perde aos poucos a capacidade de se negar o ilegítimo. O músculo do autodomínio, como todo músculo, atrofia sem uso.
O que fazer
- Escolha um pequeno “não” voluntário para esta semana — a segunda xícara, a sobremesa, a compra por impulso, uma hora a menos de tela — e cumpra-o, não por ser mau o que você recusa, mas para reafirmar quem manda. O músculo do domínio faz-se com esses exercícios miúdos.
- Identifique o apetite que hoje mais manda em você — comida, bebida, tela, conforto, compras — e observe-o com honestidade por alguns dias: quantas vezes ele decide por você? Nomear o senhor é o primeiro passo para voltar a ser dono.
Para aprofundar
- Josef Pieper, Temperança, em As Virtudes Fundamentais — o domínio ordenado dos apetites como forma de liberdade
- Catecismo da Igreja Católica, § 1809 — a temperança, que modera a atração dos prazeres e assegura o domínio da vontade sobre os instintos (vatican.va)