A técnica e seus limites
A técnica e seus limites
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Não há nada de anticristão em admirar a técnica. Ela é fruto legítimo da inteligência que Deus nos deu, extensão do mandato de “dominar a terra”, alívio de sofrimentos incontáveis. O arado, a vacina, a ponte, o computador — tudo isso é trabalho humano tornado poderoso, e agradecê-lo é justo. Mas há uma diferença enorme entre usar a técnica e ser usado por ela; entre a técnica como serva e a técnica como senhora. E o nosso tempo cruzou essa fronteira sem perceber.
Sabe o “como”, não sabe o “para quê”
O limite essencial da técnica é este: ela responde a uma pergunta só. Diz-nos como fazer — como construir a barragem, como editar o gene, como acumular a informação. Nunca nos diz se devemos fazê-lo, nem para quê. A técnica é um meio, e um meio não tem como fornecer o seu próprio fim. Perguntar à técnica qual deve ser o objetivo da vida humana é como perguntar a um martelo o que se deve construir: ele é ótimo para pregar, e completamente mudo sobre o que vale a pena.
Bento XVI enunciou isso na Caritas in Veritate com uma palavra precisa: “a técnica, em si mesma, é ambivalente” (Caritas in Veritate 14). Pode servir ao homem ou destruí-lo, curar ou matar, libertar ou escravizar — e o que decide entre um e outro não está dentro da técnica, mas fora dela, na consciência de quem a usa e nos fins a que a ordena. Uma civilização que aperfeiçoa indefinidamente os meios e deixa de saber para que servem torna-se, ao mesmo tempo, todo-poderosa e perdida. Sabe fazer tudo e já não sabe o que vale a pena fazer.
O paradigma tecnocrático
Há um perigo mais subtil, que Francisco descreveu na Laudato Si’ como o “paradigma tecnocrático”. Não é esta ou aquela máquina, mas uma mentalidade: o hábito de olhar tudo — a natureza, os outros, a si mesmo — como matéria-prima a manipular em busca de eficiência. Nesse modo de ver, tudo o que existe vale pelo que rende e pelo que se pode controlar; o que não se mede não conta; o que resiste ao domínio é problema a resolver. A técnica deixa então de ser uma ferramenta na mão e vira uma lente sobre o olho — uma forma de enxergar o mundo que achata tudo o que nele há de gratuito, de sagrado, de fim em si mesmo. O homem, que devia dominar as coisas, acaba tratando as pessoas como coisas.
Romano Guardini já vira, décadas antes, a raiz do problema: a técnica tende a expandir-se até ocupar todo o espaço, a tornar-se indispensável, a refazer o homem à sua imagem. O risco, dizia ele, não está na máquina — está na nossa rendição à lógica dela, na perda da medida humana que deveria governá-la. Quando o critério passa a ser “se é possível, então faça-se” e “se é mais eficiente, então é melhor”, a pessoa já não manda na técnica: obedece-lhe.
Manter a mão no leme
Daqui nasce, aliás, toda a trilha digital desta Biblioteca — que é, no fundo, um longo exercício de não se deixar dominar pela ferramenta. A postura cristã diante da técnica não é o medo que a rejeita nem a fascinação que se entrega: é o domínio sereno de quem usa a ferramenta e mantém a mão no leme. Pergunte sempre, antes do “como”, o “para quê”; submeta a máquina à pessoa, e não a pessoa à máquina; guarde zonas da vida — a oração, o encontro, o descanso, a contemplação — em que a lógica da eficiência simplesmente não entra. Quem faz isto usa toda a potência da técnica sem lhe entregar a alma.
O que fazer
- Diante de qualquer nova ferramenta no seu trabalho, não pergunte só se ela é possível ou mais eficiente. Pergunte primeiro para quê, e a serviço de quem. Recuse a ideia de que tudo o que se pode fazer, deve-se fazer.
- Defenda uma zona da sua vida onde a eficiência não manda. Um tempo, um lugar, uma relação em que você não otimiza nada — apenas ama, reza ou contempla. É essa reserva que impede a técnica de virar senhora.
Para aprofundar
- Bento XVI, Caritas in Veritate, § 14 — a ambivalência da técnica e o desenvolvimento humano (vatican.va)
- Romano Guardini, O Fim dos Tempos Modernos e Cartas do Lago de Como — a técnica e a perda da medida humana