O fracasso e o recomeço
O fracasso e o recomeço
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Mais cedo ou mais tarde, quase toda vida profissional conhece a queda. A demissão inesperada. O negócio em que se apostou tudo e que quebrou. O projeto de anos que desabou numa reunião. A promoção que foi para outro. O concurso perdido pela terceira vez. O fracasso profissional é uma das dores mais características da vida adulta — e das mais silenciadas, porque a nossa cultura do sucesso trata o fracasso como uma vergonha a esconder, quase uma doença contagiosa. A fé olha para ele de outro modo: não como o fim da história, mas, muitas vezes, como o seu ponto de virada.
Achar sentido na queda
Viktor Frankl, o psiquiatra que sobreviveu aos campos de concentração, fundou toda a sua obra numa descoberta feita no fundo do poço: mesmo no sofrimento que não se pode evitar, o ser humano conserva uma liberdade última — a de escolher que sentido dar ao que lhe acontece, que atitude tomar diante do inevitável. Quando não podemos mudar a situação, dizia ele, somos desafiados a mudar a nós mesmos. Aplicado ao fracasso profissional, isto é libertador: você talvez não escolha ter sido demitido, ter falido, ter perdido — mas escolhe o que fará com isso, quem se tornará por causa disso, que sentido extrairá disso. O fracasso não determina; a resposta ao fracasso, sim. É a mesma verdade que atravessa a cruz na vida da família: a dor que não se pode evitar, oferecida e assumida, deixa de ser só destruição e começa a construir.
Deus escreve certo por linhas tortas
A fé acrescenta algo que a psicologia sozinha não alcança: a certeza de que, para quem ama a Deus, tudo concorre para o bem — inclusive, e às vezes sobretudo, os fracassos. A história da salvação é uma sequência de derrotas aparentes que Deus transformou. Pedro negou o Mestre três vezes e tornou-se a pedra da Igreja. Paulo perseguia cristãos e virou o maior dos apóstolos. Incontáveis santos falharam ruidosamente — em projetos, em fundações, em carreiras — antes de Deus fazer da ruína um alicerce. O padrão bíblico é constante: a morte que precede a ressurreição, o grão que só dá fruto se cair na terra e morrer. O seu fracasso profissional pode ser exatamente o grão caído — o fim de um caminho que não era o seu, a demolição necessária de algo para que outra coisa, melhor, pudesse ser construída no lugar.
Isto não é consolo barato que manda “ver o lado bom”. É algo mais duro e mais real: a confiança de que a sua queda não escapou às mãos de Deus, e que Ele é capaz de tirar dela um bem que você, agora, no escuro, ainda não consegue ver. Muita gente só entende, anos depois, que o pior dia da sua carreira foi o começo da melhor parte da sua vida.
Recomeçar
Do fracasso bem atravessado nasce a arte de recomeçar. E ela pede três gestos. Primeiro, não se identificar com a queda: você fracassou numa coisa, você não é um fracasso — a diferença entre as duas frases é a diferença entre levantar-se e afundar. Segundo, extrair a lição: todo fracasso honesto ensina algo que nenhum sucesso ensinaria, e desperdiçar essa lição é o único fracasso irreparável. Terceiro, começar de novo, mesmo pequeno, mesmo sem garantias — porque a esperança cristã não é a certeza de que dará tudo certo, mas a certeza de que vale a pena tentar de novo, já que o resultado último está nas mãos de Quem venceu a própria morte.
O que fazer
- Se você caiu, recuse a frase “eu sou um fracasso” e troque-a pela verdadeira: “eu fracassei nisto — e vou aprender e recomeçar”. A primeira paralisa; a segunda põe de pé.
- Procure, no seu fracasso mais recente, a lição que só ele podia dar e o começo que ele talvez esteja abrindo. Depois dê um passo concreto de recomeço, ainda que pequeno. Confie o resto a Deus, que faz dos grãos caídos a colheita.
Para aprofundar
- Viktor Frankl, Em Busca de Sentido — a liberdade de escolher a atitude diante do sofrimento inevitável
- Carta de São Paulo aos Romanos 8,28 — para os que amam a Deus, tudo concorre para o bem