Contemplar
Contemplar
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No coração do ócio está um único ato, o mais alto de que a alma humana é capaz e o que a nossa época mais perdeu: contemplar. Contemplar é olhar sem querer usar — deter-se diante de algo e recebê-lo pelo que ele é, não pelo que ele rende. É a diferença entre olhar uma árvore e calcular quantas tábuas ela daria, e olhar a mesma árvore em silencioso espanto pela sua beleza e pelo mistério de que exista. O primeiro olhar usa; o segundo contempla. E é o segundo que descansa a alma e a eleva.
Ver sem usar
A nossa época instrumentalizou tudo. Aprendemos a olhar o mundo sempre com a pergunta “para que serve?”, “o que posso extrair disto?”, “que proveito me dá?”. É o olhar do trabalho e da técnica, útil e necessário no seu lugar — mas que, quando se torna o único olhar, seca a alma, porque deixa de haver algo que valha por si, algo que se receba gratuitamente, algo diante do qual simplesmente nos maravilhemos. A contemplação é o outro olhar: aquele que se detém diante de uma coisa boa, verdadeira ou bela, e não quer dela nada além de que ela seja — e se alegra de que seja. É o olhar de quem admira um pôr do sol sem o fotografar para exibir, de quem escuta uma música sem a usar de fundo para outra tarefa, de quem contempla o rosto de quem ama sem agenda, de quem fica diante de Deus sem pedir nada, só estando.
Este olhar é receptivo, não conquistador — e é justamente por isso que é o mais alto. Costumamos achar que o mais nobre é agir, produzir, dominar; mas as coisas mais altas da vida fazem-se recebendo, não agarrando. O amor recebe o outro; a fé recebe Deus; o conhecimento mais profundo recebe a verdade que se lhe dá; e a contemplação recebe a realidade como dom. A alma que só sabe agarrar nunca descansa, porque agarrar é esforço sem fim; a alma que aprende a receber encontra, na contemplação, um repouso que nenhuma conquista dá.
A antessala da adoração
Há uma continuidade profunda entre contemplar uma flor e adorar a Deus — e é por isso que a contemplação é tão importante. Quem aprende a olhar com espanto e gratidão a criação está aprendendo o olhar com que se olha o Criador. A beleza das coisas, contemplada, é uma porta: o esplendor de uma paisagem, a ordem de uma equação, a ternura de um gesto, tudo isso, recebido em contemplação, aponta para além de si, para a Fonte de toda verdade, bondade e beleza. Por isso os grandes contemplativos — os que passaram a vida a olhar Deus em oração — costumavam ser também os que mais amavam e mais viam a criação: São Francisco cantando o irmão sol e a irmã lua, os místicos maravilhados com uma folha. Contemplar o mundo e contemplar Deus são o mesmo movimento da alma, em graus diferentes. E ambos são descanso — o descanso de quem para de produzir e simplesmente se deixa encher pelo que é.
Reaprender a olhar
A contemplação, como tudo, atrofia sem uso e recupera-se com exercício. E o exercício é simples de dizer e difícil de fazer num mundo apressado: parar e olhar. Escolher, de propósito, deter-se diante de algo — a natureza, uma obra, uma pessoa, o Santíssimo Sacramento — e ficar, sem pressa, sem agenda, sem celular, só recebendo. No começo a alma inquieta resiste, quer “fazer algo”, acha que perde tempo. Mas quem persevera reencontra uma capacidade que julgava perdida: a de se maravilhar, de receber, de estar presente ao que é. E descobre que esse “perder tempo” contemplando é, na verdade, o tempo mais bem gasto — o único em que a alma verdadeiramente descansa e se enche.
O que fazer
- Pratique o olhar que não usa: escolha algo belo — a natureza, uma obra de arte, um rosto amado — e detenha-se diante dele por uns minutos sem fazer nada, sem fotografar, sem celular, só recebendo e admirando. É o exercício elementar da contemplação.
- Leve esse olhar até Deus: passe um tempo diante d’Ele — na oração silenciosa, diante do Santíssimo — sem pedir nada, só estando e recebendo. Descubra que a contemplação de Deus é o descanso mais profundo, o mesmo olhar da flor levado ao seu cume.
Para aprofundar
- Catecismo da Igreja Católica, §§ 2709—2719 — a oração contemplativa, o olhar que recebe a Deus (vatican.va)
- Josef Pieper, O Ócio e a Vida Intelectual — a contemplação como recepção do real, distinta do olhar que só usa