O cume do descanso é a adoração
O cume do descanso é a adoração
⏱ 4 min de leitura
Percorremos as formas do descanso, do sono à contemplação, subindo a cada passo. Chegamos ao cume — àquela forma de repouso para a qual todas as outras apontavam sem o saber: a adoração. O descanso mais profundo de que o ser humano é capaz é estar diante de Deus, recebê-Lo, amá-Lo, adorá-Lo — simplesmente estar aos seus pés. Josef Pieper mostrou-o com precisão: a raiz última de todo verdadeiro ócio e de toda festa é o culto divino, a adoração; é dela que o descanso tira o seu sentido mais alto. Fora dela, o repouso fica sem o seu cume; nela, encontra o seu descanso.
Marta e Maria
Há uma cena do Evangelho que diz tudo isto numa imagem, e que se tornou o ícone eterno da questão. Jesus entra em casa de duas irmãs. Marta, a ativa, “andava atarefada com muito serviço” — cozinhava, servia, preparava, ansiosa por acolher bem o Mestre. Maria, a contemplativa, “sentou-se aos pés do Senhor e escutava a sua palavra”. Marta, sobrecarregada, queixa-se: “Senhor, não te importas que a minha irmã me deixe servir sozinha? Dize-lhe que me venha ajudar.” E Jesus responde com uma ternura que corrige sem esmagar: “Marta, Marta, andas inquieta e preocupada com muitas coisas, mas uma só é necessária; Maria escolheu a melhor parte, que não lhe será tirada” (Lc 10,38-42).
Repare no que Jesus não diz. Não condena o serviço de Marta — servir é bom, necessário, e Ele mesmo veio para servir. O que Ele corrige é a inquietação de Marta, a sua ansiedade “com muitas coisas”, e sobretudo estabelece uma hierarquia: entre a atividade útil e o estar aos pés do Senhor, o segundo é “a melhor parte”. Não porque o trabalho não valha, mas porque o trabalho é para isto — para que haja, no fim, quem possa sentar-se aos pés de Deus e recebê-Lo. Marta trabalha para que a casa acolha o Senhor; mas o objetivo de acolher o Senhor é estar com Ele, como Maria. A ativa serve a festa; a contemplativa vive-a. E a festa é o fim, o serviço é o meio.
A “única coisa necessária”
“Uma só é necessária.” Diante da nossa vida atarefada, inquieta “com muitas coisas” — exatamente como Marta —, a palavra de Jesus é um alívio e um chamado. Alívio, porque nos liberta da tirania das mil urgências: no meio de tudo o que parece necessário, há uma coisa que verdadeiramente é, e o resto se ordena a ela. Chamado, porque nos pede que não deixemos o serviço, por mais bom que seja, engolir o estar-com-Deus, que é a razão de todo o resto. Quantas vezes, como Marta, nos deixamos devorar pelas tarefas — até pelas tarefas religiosas, o ativismo piedoso — e nunca nos sentamos, como Maria, simplesmente a receber o Senhor? O descanso supremo, a “melhor parte”, é esse: parar de fazer pelo Senhor para simplesmente estar com o Senhor.
O ensaio do Céu
E aqui está por que a adoração é o cume do descanso: porque é o ensaio do Céu. O que faremos na eternidade não é trabalhar, nem produzir, nem sequer descansar no sentido de recuperar forças — é adorar, contemplar, amar a Deus face a face, repousar n’Ele para sempre. A adoração é, já agora, um pedaço dessa eternidade antecipado no tempo: quando você se ajoelha diante do Santíssimo, ou se recolhe em oração, ou participa da Missa recebendo o Senhor, você está fazendo, imperfeitamente e por instantes, aquilo que fará plenamente e sem fim no Céu. Por isso é o descanso mais profundo — é a alma a tocar já o seu repouso definitivo, o fim para o qual foi feita. Todas as outras formas de descanso são boas e necessárias; mas todas apontam para esta, e nesta encontram o seu sentido. Quem aprende a adorar aprendeu a descansar de verdade, porque encontrou o único repouso que não passa.
Assim, este descanso que culmina na adoração abre a última porta — a do descanso que não terá fim, para onde toda esta Biblioteca, no fundo, caminhava.
O que fazer
- Escolha, no meio das suas “muitas coisas”, a “única necessária”: reserve um tempo para simplesmente estar com Deus — não fazer por Ele, mas estar com Ele —, aos pés do Senhor como Maria. Deixe que o serviço se ordene a esse estar, e não o contrário.
- Faça da adoração o cume do seu descanso: passe um tempo diante do Santíssimo, ou em oração silenciosa, sabendo que ali você ensaia o Céu. É o repouso mais profundo que existe — e o único que não lhe será tirado.
Para aprofundar
- Evangelho segundo São Lucas 10,38-42 — Marta e Maria; “uma só coisa é necessária”
- Catecismo da Igreja Católica, § 2715 — a contemplação como olhar de fé fixado em Jesus, repouso da alma (vatican.va)