A amizade
A amizade
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Aristóteles dedicou à amizade dois dos dez livros da sua Ética — mais do que a qualquer virtude isolada. Não por acaso: os antigos viam na amizade uma das maiores coisas que a vida humana pode oferecer, e uma das que mais nos formam. Hoje, num tempo de mil “contatos” e “seguidores” e quase nenhum amigo de verdade, o próprio sentido da palavra empalideceu. Recuperar o que é a amizade verdadeira é recuperar um dos grandes bens humanos — e uma escola insubstituível do coração.
Três amizades
Aristóteles distinguia três tipos de amizade, e a distinção continua exata. Há a amizade por utilidade: gosto de você porque me é útil — o colega que me abre portas, o contato que me serve. Há a amizade por prazer: gosto de você porque me diverte, é agradável estar consigo. E há a amizade por virtude: quero o seu bem por causa de quem você é, pela bondade que vejo em você — e você quer o meu pela mesma razão. Só esta terceira é amizade em sentido pleno. As duas primeiras são reais, mas frágeis: acabam quando acaba a utilidade ou o prazer. A terceira dura, porque não se baseia no que o amigo me dá, mas em quem ele é — e por isso resiste ao tempo, à distância e à adversidade.
A marca da amizade verdadeira é esta: querer o bem do outro pelo outro, e não por mim. O amigo de verdade alegra-se com o seu sucesso sem inveja, sofre com a sua dor como se fosse sua, diz-lhe a verdade que dói quando é preciso, e permanece quando os amigos de conveniência já foram embora. Por isso a Escritura diz que “um amigo fiel é um refúgio seguro; quem o encontra, encontra um tesouro” (Sir 6,14). É raro, e é lento — a verdadeira amizade não se improvisa; cresce ao longo de anos, na confiança testada e na vida partilhada.
Amigos fazem-nos melhores
E aqui está por que a amizade forma. Dizia-se que o amigo é “um outro eu” — alguém em quem nos vemos, com quem nos medimos, que nos puxa para cima. Escolhemos, sem perceber, tornar-nos parecidos com aqueles de quem andamos perto; as amizades vão-nos moldando o caráter, para o bem ou para o mal. Andar com quem busca o bem torna-nos melhores; andar com quem se acomoda ou corrompe arrasta-nos para baixo. Por isso a escolha das amizades é uma das decisões mais formadoras de uma vida — “diga-me com quem você anda, e eu direi quem você está se tornando”. A amizade virtuosa é uma aliança para o bem: dois que caminham na mesma direção e se ajudam a não desistir.
C.S. Lewis, que escreveu páginas belíssimas sobre isto, notava que a amizade nasce quase sempre de uma descoberta comum — daquele momento em que um diz ao outro “Você também? Pensei que fosse só eu”. Os amigos, dizia ele, não ficam olhando um para o outro (como os apaixonados), mas lado a lado, olhando juntos para uma verdade, uma paixão ou um bem que ambos amam. É essa terceira coisa amada em comum — a fé, uma arte, um ideal, a busca da verdade — que funda as grandes amizades e as mantém.
A amizade mais alta
Há, por fim, um cume que dá sentido a todos os outros. Aristóteles achava impossível uma amizade entre o homem e Deus, por causa da distância infinita entre eles. O cristianismo trouxe a notícia impensável: Deus quis fazer-se nosso amigo. “Já não vos chamo servos… chamei-vos amigos” (Jo 15,15), disse Jesus. São Tomás definiria a própria caridade como uma amizade com Deus. Todas as amizades humanas são, no fundo, imagens e caminhos dessa amizade suprema — e as melhores delas são as que, amando juntos a Deus, aproximam de Deus os dois amigos. Um amigo que o ajuda a ser melhor e a chegar mais perto do Céu é o maior tesouro humano que existe.
O que fazer
- Faça o balanço das suas amizades: quais são por utilidade, quais por prazer, e quais por virtude? Invista tempo — que é o que a amizade verdadeira exige — nas poucas que o tornam melhor, e não deixe que a conveniência e as telas as substituam por contatos vazios.
- Seja você o amigo virtuoso que deseja ter: queira o bem dos seus amigos por eles mesmos, alegre-se com o sucesso deles sem inveja, diga-lhes a verdade com amor, e puxe-os para cima. A amizade que forma começa por você ser um amigo que forma.
Para aprofundar
- C.S. Lewis, Os Quatro Amores — o capítulo sobre a amizade (philia), o amor que olha lado a lado
- Aristóteles, Ética a Nicômaco, livros VIII e IX — as três amizades e a amizade por virtude