As virtudes pequenas
As virtudes pequenas
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Depois das quatro grandes virtudes cardeais, um doc sobre as pequenas — e o adjetivo é enganoso, porque são elas que ocupam quase toda a nossa vida. Poucas vezes na existência somos chamados a um ato heroico de coragem ou de justiça; mas todos os dias somos chamados a chegar na hora, a cumprir a palavra, a manter a ordem, a dizer a verdade, a não descontar nos outros o nosso mau humor. São as virtudes humanas do cotidiano — pontualidade, laboriosidade, sinceridade, boa disposição, gratidão, generosidade no detalhe —, e São Josemaría Escrivá insistia que são o alicerce sem o qual nada de alto se sustenta.
O alicerce humano
Escrivá dizia uma coisa que corta muita ilusão piedosa: não se pode ser um bom cristão sendo, ao mesmo tempo, um mau ser humano. A graça, já vimos, aperfeiçoa a natureza — mas precisa de uma natureza sobre a qual trabalhar. De que adianta a alguém falar muito de amor a Deus se é impontual, desleixado, insincero, insuportável de conviver? O alicerce está rachado, e o edifício espiritual que se tentar erguer sobre ele vai torto. As virtudes humanas pequenas são esse alicerce. Quem cultiva a ordem, a pontualidade, a lealdade à palavra dada, a diligência no trabalho, a sinceridade, prepara em si o terreno firme onde as virtudes maiores — e a própria graça — podem assentar. E quem as despreza como “detalhes” constrói sobre areia, por mais elevadas que sejam as suas intenções.
Onde o caráter se prova
Há também uma verdade psicológica aqui: o caráter revela-se e forja-se muito mais no pequeno do que no grande. É fácil ser generoso num gesto memorável e mesquinho nos mil gestos diários; ser corajoso na ocasião épica e covarde nas pequenas verdades de todo dia. O que você é de verdade aparece não nas grandes cenas — que são raras e para as quais nos preparamos —, mas nas reações automáticas do cotidiano: como você trata o garçom, se cumpre o horário quando ninguém cobra, se devolve o troco a mais, se mantém a palavra numa promessa que ninguém lembraria. Essas coisas pequenas não são pequenas: são o retrato fiel da alma, tirado quando ela não está posando. E são, por isso mesmo, o campo de treino perfeito — disponível todos os dias, para todos, sem espera de grandes ocasiões.
As pequenas virtudes são caridade
Falta ver a sua face mais bela. As virtudes pequenas parecem voltadas para o aperfeiçoamento próprio, mas quase todas são, no fundo, formas concretas de amar o próximo. A pontualidade respeita o tempo dos outros — chegar atrasado é dizer, sem palavras, que o meu tempo vale mais que o seu. A ordem serve a quem convive comigo e não terá de carregar a minha bagunça. A boa disposição — a alegria mantida mesmo em dia ruim — alivia o peso de quem está por perto, em vez de o aumentar. A sinceridade honra o outro com a verdade. A palavra cumprida é a matéria de que se faz a confiança, sem a qual nenhuma relação se sustenta. Cultivar as virtudes pequenas é, portanto, uma maneira humilde e constante de tornar a vida dos outros mais leve — a caridade traduzida em hábitos miúdos, que ninguém elogia e todos sentem.
O que fazer
- Escolha uma virtude pequena em que você falha e trate-a como projeto sério, não como detalhe: a pontualidade, a ordem, a palavra cumprida, o bom humor mantido. Ganhe-a com repetição, e repare como o “detalhe” firma o alicerce inteiro.
- Reformule as suas virtudes pequenas como caridade: da próxima vez que for pontual, ordenado ou bem-disposto, faça-o pelos outros — pelo respeito ao tempo, ao espaço e ao ânimo de quem convive com você. A pequena virtude vira amor quando muda de destinatário.
Para aprofundar
- São Josemaría Escrivá, Amigos de Deus, homilia “As virtudes humanas” — o alicerce humano das virtudes sobrenaturais
- Catecismo da Igreja Católica, § 1804 — as virtudes humanas, disposições estáveis que governam os atos e ordenam as paixões (vatican.va)