O trabalho que humilha
O trabalho que humilha
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A travessia anterior era a de quem tem trabalho demais e dele fez um ídolo. Esta é a oposta, e mais dolorosa: a de quem não tem trabalho, ou tem um que humilha. O desemprego prolongado, o subemprego que não paga as contas, o “bico” sem direitos nem futuro, o emprego tão vazio de sentido que a pessoa se sente uma peça inútil de uma engrenagem que nem entende. São feridas que a nossa época multiplica — e diante delas a fé tem uma palavra a dizer, que começa por não ser um sermão.
O desemprego é um mal real
Comecemos por não minimizar. A Doutrina Social nunca tratou o desemprego como um azar individual ou uma preguiça disfarçada. João Paulo II chamou-lhe, sem rodeios, “um mal” que, quando se alastra, “pode tornar-se uma verdadeira calamidade social” (Laborem Exercens 18). Quem está sem trabalho não sofre apenas a falta de dinheiro; sofre a perda de um lugar no mundo, a sensação de não ser necessário a ninguém, a corrosão lenta da autoestima, o peso de olhar a família sem saber como prover. É uma cruz real, e reconhecê-la como cruz — não como fracasso vergonhoso a esconder — já é o começo de a atravessar com dignidade.
E porque é um mal social, ele gera deveres nos outros. Quem tem trabalho e meios deve, em solidariedade, preocupar-se com quem não tem: contratar com justiça, indicar, formar, criar oportunidade, socorrer. O desemprego do próximo não é problema só dele; é uma responsabilidade de todos nós, porque todos somos responsáveis por todos.
Você não é o seu cargo
Mas a palavra mais importante é para quem atravessa a ferida por dentro. E ela é esta: o seu valor não está em jogo. A nossa cultura ensina, mil vezes por dia, que a pessoa vale o que produz — e por isso quem não produz, ou produz pouco, ou produz coisas sem prestígio, sente-se valer menos. É uma mentira, e uma das mais cruéis. Já vimos, logo no começo, que “o homem vale mais pelo que é do que pelo que tem”. O seu valor foi decidido antes de qualquer emprego, e por Outro: você é filho de Deus, criado por amor, e isso não sobe com uma promoção nem desce com uma demissão. O desempregado, o aposentado, o doente, aquele cujo trabalho o mundo despreza — todos têm exatamente a mesma dignidade infinita de quem está no topo. Perder o emprego é perder uma coisa dolorosa e real; não é perder o valor, porque esse nunca esteve à venda.
Trabalho humilde não é trabalho humilhante
Há ainda uma distinção que liberta. Existe o trabalho humilde — modesto, mal pago, invisível, sem glamour — e existe o sentimento de ser humilhado por ele. Os dois não são a mesma coisa. Nenhum trabalho honesto rebaixa quem o faz; é a mentira do prestígio que rebaixa, ao convencer a pessoa de que varrer, servir, cavar ou limpar é indigno. Não é. O mesmo Deus que se fez carpinteiro dá ao trabalho mais simples uma nobreza que nenhum cargo de chefia possui por si. Quem faz um trabalho humilde com amor e capricho está mais perto de Nazaré do que muitos executivos — e um dia se verá que os últimos, aqui, eram os primeiros.
O que fazer
- Se você atravessa o desemprego ou um trabalho que o humilha, separe as duas dores: a perda real (que é justo lamentar e combater) e a mentira de que você vale menos (que é preciso recusar). Repita, contra a corrente do mundo: eu valho pelo que sou, não pelo que produzo.
- Se você tem trabalho e meios, torne a solidariedade concreta com quem não tem: contrate com justiça, indique alguém, ofereça formação, socorra uma família. O emprego que sobra a você pode ser a saída para outro.
Para aprofundar
- São João Paulo II, Laborem Exercens, § 18 — o desemprego como mal social e a responsabilidade de todos (vatican.va)
- Concílio Vaticano II, Gaudium et Spes, § 35 — o homem vale mais pelo que é do que pelo que tem (vatican.va)