Ockham e a perda do real
Ockham e a perda do real
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No século XIV, um frade franciscano chamado Guilherme de Ockham travou uma disputa que parece árida e distante — sobre os chamados universais — mas que mudou silenciosamente o rumo do Ocidente. A pergunta era simples de enunciar: quando dizemos que dois cães são ambos “cães”, ou que duas pessoas partilham uma mesma “humanidade”, esse algo comum — a caninidade, a humanidade, a natureza — existe de verdade, ou é só uma palavra que inventamos para agrupar coisas parecidas? A resposta de Ockham teve consequências que ele mesmo jamais imaginou.
O que estava em jogo
A tradição realista — de Aristóteles a Santo Tomás — respondia: sim, as coisas têm naturezas reais. Existe algo de verdadeiramente comum entre todos os homens, e a nossa inteligência é capaz de o alcançar, de abstrair a essência a partir dos indivíduos que encontra. Por isso o conhecimento é possível: o mundo é inteligível, tem estrutura, e a mente foi feita para a ler. Quando entendo o que é um homem, não estou apenas colando um rótulo — estou tocando algo que está realmente ali, na realidade.
Ockham respondeu de outro modo. Para ele, só existem os indivíduos — este homem, aquele cão, esta árvore. O “comum” não está nas coisas; é apenas um nome, um sopro da voz, um sinal que a mente usa para economizar. Daí o nome da sua posição: nominalismo — do latim nomen, nome. Os universais seriam etiquetas nossas, não realidades. À primeira vista, parece humildade filosófica, uma faca que corta o supérfluo. No fundo, era uma tesoura cortando o fio que ligava a mente à realidade.
Por que isso importa até hoje
Se as coisas não têm naturezas reais e comuns, então a nossa inteligência já não alcança a essência de nada — alcança apenas nomes que nós mesmos criamos. O mundo deixa de ser um livro escrito por Deus, cheio de sentido a ser lido, e passa a ser uma coleção de fatos avulsos, sem ordem interna, mantidos juntos apenas pela vontade — a de Deus, primeiro, e depois a nossa. Três consequências se seguiram, e nós as herdamos:
- O real fica opaco. Se não posso conhecer a natureza das coisas, o conhecimento vira sempre incerto, provisório, uma aposta. Abre-se a porta para a dúvida moderna.
- A ponte entre mente e mundo racha. Se os conceitos são só nomes meus, como saber se correspondem ao que existe? A pergunta que atormentará Descartes já está aqui plantada.
- Sobra a vontade. Se as coisas não têm uma natureza que diga o que elas são e para que servem, o que resta para decidir o seu sentido? A vontade — e é esse o fio que seguiremos até o fim desta seção.
Nem toda simplicidade é verdade
Ockham é lembrado também pela sua “navalha” — o princípio de não multiplicar as explicações sem necessidade. É uma boa regra de método, e continua útil. Mas há uma ironia amarga na sua história: em nome de simplificar, ele cortou algo que era real. Nem toda economia é lucro; às vezes, ao aparar o que parece supérfluo, corta-se justamente o que sustentava tudo. As naturezas das coisas não eram um luxo metafísico — eram a garantia de que o mundo pode ser conhecido, e de que a verdade é mais do que um nome que damos ao que nos convém.
O que fazer
- Guarde a distinção-mãe: realismo diz que as coisas têm naturezas reais que a mente pode conhecer; nominalismo diz que só há indivíduos e nomes. Quase todo o resto desta via depende de saber de que lado se está.
- Desconfie da suposta humildade que, para “simplificar”, nega que o real tenha estrutura. Costuma ser o primeiro passo para pôr a nossa vontade no lugar da realidade.
Para aprofundar
- Étienne Gilson, O realismo metódico — a defesa de que a inteligência parte do ser real, e não das próprias ideias
- Richard Weaver, Ideias têm consequências — o nominalismo de Ockham como a virada que abre a modernidade