Conhecer por conaturalidade
Conhecer por conaturalidade
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Chegamos ao nome mais preciso — e mais antigo — para a intuição que abre esta seção. Existe um modo de conhecer que não passa pelo estudo nem pelo raciocínio, mas pela afinidade: conhecemos certas coisas por sermos, de algum modo, semelhantes a elas, conformes a elas. Santo Tomás de Aquino chamou a isto conhecer por conaturalidade — literalmente, por uma “co-naturalidade”, uma comunidade de natureza entre quem conhece e o que é conhecido. É talvez a resposta mais funda à sua segunda intuição: a de que há um saber que “lida com os fatos” de dentro, e não apenas com os símbolos que os representam de fora.
O casto e o moralista
Santo Tomás dá um exemplo que vale por um tratado. Sobre a virtude da castidade, diz ele, pode-se julgar de duas maneiras. A primeira é pelo estudo: um moralista, mesmo que não seja casto, conhece a doutrina, sabe definir a virtude, argumenta sobre ela. A segunda é por conaturalidade: a pessoa que é casta julga com acerto sobre a pureza sem precisar de tratado nenhum — reconhece o que é reto por uma espécie de instinto, de gosto, de afinidade com a coisa, porque a virtude que ela vive lhe deu um faro para o bem. O moralista sabe sobre a castidade; o casto conhece-a por dentro. E, na hora de discernir um caso concreto e delicado, o segundo julga melhor — ainda que saiba explicar menos.
Isto vira do avesso o preconceito moderno de que só sabe de verdade quem sabe demonstrar. Há um conhecimento que se tem pelo que se é, e não só pelo que se pensa; um conhecimento que a virtude dá e o vício tira, independentemente da esperteza. Por isso uma pessoa simples e boa muitas vezes discerne o essencial que escapa ao intelectual brilhante e corrompido: ela conhece o bem por ser conforme a ele.
Conhecemos como amamos
Jacques Maritain, no século XX, retomou e alargou essa ideia, mostrando que ela ilumina zonas inteiras da vida. Por conaturalidade conhece o poeta, que capta o real não por conceitos mas por uma ressonância entre as coisas e a sua alma. Por conaturalidade conhece quem ama, pois o amor conforma o amante ao amado e lhe dá acesso a ele. E por conaturalidade, acima de tudo, conhece o santo, que sabe de Deus não por ter estudado mais teologia, mas por Lhe ser semelhante pela caridade. “Tornamo-nos aquilo que amamos”, diziam os antigos — e por isso passamos a conhecer aquilo com que nos tornamos semelhantes. O amor não é cego, ao contrário do que diz o ditado: o amor é uma forma altíssima de conhecimento, que enxerga o que a fria análise não vê.
O saber dos que rezam
Daí se entende uma das coisas mais belas da tradição cristã: que os grandes conhecedores de Deus não foram, em regra, os mais eruditos, mas os que mais O amaram. A sabedoria, no sentido pleno, é um dom do Espírito Santo que nos faz julgar as coisas divinas por conaturalidade — por conivência com Deus, dizia Santo Tomás. Quem reza conhece de Deus, por afinidade, o que nenhum livro ensina. Isto não desmerece o estudo — a inteligência formada é serva preciosa da fé. Mas põe cada coisa no seu lugar: o saber mais alto do real não se conquista só com a cabeça, e sim com o ser inteiro conformado à verdade e ao bem. Conhecer, no fim, é uma questão de amor.
O que fazer
- Não meça o seu conhecimento das coisas mais importantes só pela capacidade de as explicar. Pergunte também: eu me tornei semelhante àquilo que quero conhecer? Vive-se a verdade que se busca saber.
- Confie no discernimento das pessoas boas e simples, mesmo quando não sabem argumentar. Elas conhecem por conaturalidade o que muitos hábeis perderam de vista.
- Se quer conhecer Deus, não se contente em estudá-Lo: ame-O. É o amor que conforma a alma a Ele e a torna capaz de O conhecer por dentro.
Para aprofundar
- Santo Tomás de Aquino, Suma Teológica, II-II, q. 45 — o dom da sabedoria e o conhecer as coisas divinas por conaturalidade
- Jacques Maritain, Os graus do saber — o conhecimento por conaturalidade no conhecimento moral, poético e místico