De Descartes ao «eu» fechado
De Descartes ao «eu» fechado
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Três séculos depois de Ockham, um filósofo francês herdou o mundo opaco e incerto que o nominalismo havia deixado — e tentou salvá-lo com um gesto que, sem querer, aprofundou a ferida. René Descartes buscava uma certeza absoluta, à prova de qualquer dúvida. Para encontrá-la, decidiu fazer o contrário de todos os antigos: em vez de partir do mundo e subir até a mente, resolveu duvidar de tudo o que pudesse ser posto em dúvida — os sentidos, o corpo, o próprio mundo exterior — e recomeçar a partir do único ponto que a dúvida não alcançava. Esse ponto foi o famoso penso, logo existo.
A certeza que começa na dúvida
O achado de Descartes parece sólido: mesmo que eu duvide de tudo, não posso duvidar de que estou duvidando — e, portanto, de que existo como coisa pensante. Sobre essa rocha ele quis reconstruir todo o saber. O problema não está no que ele afirmou, mas em por onde começou. Ao fazer da própria mente o primeiro dado certo, e do mundo exterior algo a ser provado depois, Descartes inverteu a ordem natural do conhecimento. Para os antigos, a inteligência começava já em contato com as coisas: conhecer era acolher o real. A partir de Descartes, a inteligência começa dentro de si e precisa, num segundo momento, construir uma ponte de volta ao mundo — e a pergunta angustiante passa a ser se essa ponte aguenta.
A sala de espelhos
Quem parte de dentro corre o risco de nunca mais sair. Se o que conheço primeiro são as minhas próprias ideias, e só depois — e com esforço — o mundo que elas supostamente representam, então a mente se fecha numa espécie de sala: lida com as suas representações, e o real fica do outro lado do vidro, sempre suspeito, sempre por confirmar. O espelho, que na via inteira usamos como imagem, aqui vira-se para dentro: em vez de refletir o mundo, a mente passa a contemplar a si mesma. Toda a filosofia moderna que se seguiu — de um lado os que confiam só na razão, de outro os que confiam só na experiência — é, em boa medida, a tentativa de escapar dessa sala. Muitos concluíram que não há saída: que só conhecemos as nossas ideias, os nossos fenômenos, as nossas construções — nunca as coisas em si.
O eu como medida
O resultado de longo prazo foi uma inversão que hoje nos parece natural: o eu tornou-se a medida de todas as coisas. Se a realidade só me chega filtrada pela minha mente, então, no limite, a minha mente decide o que conta como real. Do “penso, logo existo” a modernidade escorrega, lenta mas firmemente, para o “sinto, logo é verdade” e o “quero, logo é”. A humildade antiga — medir o pensamento pela realidade — inverte-se no orgulho moderno de medir a realidade pelo pensamento. E aqui a genealogia toca o seu ponto decisivo, que a próxima folha enfrenta: quando o eu se põe como medida, quem passa a decidir o que as coisas são não é mais a sua natureza, mas a nossa vontade.
O que fazer
- Note o gesto cartesiano em você: sempre que trata a sua impressão, o seu sentimento ou a sua ideia como o dado primeiro e mais certo — e a realidade como algo secundário, a confirmar depois —, está dentro da sala de espelhos.
- Recupere a ordem antiga: a inteligência foi feita para começar nas coisas, não em si mesma. Conhecer é sair de casa, não decorar as paredes do quarto.
Para aprofundar
- Jacques Maritain, Três reformadores — Descartes e as raízes do subjetivismo moderno
- Étienne Gilson, O realismo metódico — por que o conhecimento deve partir do ser, e não da consciência que duvida