Observe a realidade tal como É. Assim terás força e capacidade de ação!
Toc toc

Quando a vontade decide o real

Quando a vontade decide o real

6 min de leitura

Chegamos à raiz de tudo. Vimos o nominalismo esvaziar as coisas das suas naturezas e vimos Descartes fechar a mente dentro de si. Junte-se as duas coisas e surge uma pergunta que a modernidade nunca respondeu bem: se as coisas não têm uma natureza que diga o que elas são e para que existem, quem decide o seu sentido? Sobra uma só resposta — a vontade. Primeiro a vontade de Deus, concebida como puro poder; depois, quando Deus recua do horizonte moderno, a vontade do homem. É a virada mais discreta e mais decisiva de todas: aquela em que o real deixa de ser algo que se recebe e passa a ser algo que se decreta.

A vontade acima da natureza

Há duas maneiras de ordenar, dentro de nós, a inteligência e a vontade. Na visão realista — de Aristóteles a Santo Tomás —, a vontade segue a inteligência: quero o bem porque primeiro o reconheço como bom; a natureza das coisas mede o meu querer. As coisas são boas, e por isso as desejo. Na visão que se impôs a partir do fim da Idade Média — o voluntarismo —, a ordem inverte-se: a coisa é boa porque é querida, e não querida porque é boa. A vontade vem primeiro; a natureza, se existe, obedece.

Aplicada a Deus, essa ideia O transforma num poder sem razão, cujos mandamentos seriam arbitrários — bons apenas porque impostos. Aplicada ao homem, quando ele toma o lugar deixado vago por Deus, ela produz o gesto típico do nosso tempo: a realidade é aquilo que eu decido que ela seja. Em vez de a vontade se curvar ao real, o real é dobrado à vontade. Foi essa inversão, e não este ou aquele erro isolado, que envenenou a raiz.

A tentação mais antiga

Nada disto é, no fundo, novo. É a primeira tentação, contada nas primeiras páginas da Escritura. No jardim, a serpente promete: “sereis como Deus, conhecedores do bem e do mal” — isto é, decidireis vós mesmos o que é bom e o que é mau, em vez de o receberdes d’Aquele que fez as coisas com uma natureza e uma ordem. O pecado das origens não foi um apetite qualquer; foi a pretensão de pôr a própria vontade no lugar da verdade das coisas. Todo voluntarismo é um regresso àquele jardim: a recusa de receber o real como dom, e a vontade de o produzir como obra minha. O que muda, de época para época, é apenas o traje da tentação.

Uma raiz, muitos frutos

Essa mesma raiz — a vontade colocada acima da natureza dada — dá frutos em terrenos que parecem não ter nada em comum. Atravessa, compreendida com honestidade, as grandes rupturas religiosas da era moderna: muitos dos que então refizeram o mundo cristão buscavam algo genuíno — mais sinceridade, mais certeza da salvação, o contato imediato com a graça —, mas o faziam sobre uma armação filosófica já minada pelo nominalismo, na qual a ordem visível e recebida pesava menos do que a decisão de cada consciência. O anseio muitas vezes era bom; a moldura em que se apoiava é que estava avariada.

E a mesma raiz reaparece, hoje, quando presumimos refazer à vontade aquilo que o ser humano é — decretando que o homem e a mulher não são naturezas recebidas, mas escolhas a fazer, matéria bruta à espera da nossa decisão. Muda o vocabulário, muda o século; a essência é uma só: a vontade que não aceita receber o real, e insiste em legislá-lo. Reconhecer isso não é reunir inimigos numa mesma acusação — é enxergar, sob roupagens diferentes, uma única ferida antiga, para poder tratá-la onde ela realmente está.

Uma ferida a curar, não uma bandeira

E ela está, antes de mais, em cada um de nós. Este voluntarismo não é o vício dos outros: mora em mim toda vez que prefiro a minha vontade à verdade das coisas, que chamo de bom o que me convém e de real o que me agrada. Por isso nomeamos a raiz sem apontar pessoas — não para vencer um debate, mas para curar algo que carregamos juntos. A quem ama a verdade, venha de onde vier e reze como rezar, esta via estende a mão, não o punho: venha, aprendamos juntos a ver o real, que a ninguém pertence e a todos se oferece. Dizemos isto sem medo de desagradar; se custar, pagaremos o preço por amor à verdade — nunca como quem combate pessoas, sempre como quem convida irmãos.

O que fazer

  • Apanhe-se no gesto: sempre que decide o que uma coisa “é” a partir do que quer que ela seja, você repetiu, em miniatura, a tentação do jardim.
  • O remédio não é mais força de vontade, e sim mais humildade: receber o real como dom, antes de decidir qualquer coisa sobre ele. Primeiro ver; depois querer.
  • Diante de quem pensa diferente, guarde o tom desta casa: firmeza na verdade, ternura com a pessoa. A verdade não precisa de hostilidade para se impor — precisa de ser vista.

Para aprofundar

  • Livro do Gênesis 3,1-7 — a tentação de decidir por si mesmo o bem e o mal, em vez de o receber de Deus
  • São João Paulo II, Veritatis Splendor — a liberdade só é verdadeira quando ligada à verdade das coisas, não quando as inventa (vatican.va)
  • Romano Guardini, O fim dos tempos modernos — o homem moderno e a perda da ordem recebida do mundo

UMA SUBTRAÇÃO POR SEMANA

A biblioteca inteira está aqui, aberta, de graça, e vai continuar assim. Mas ler tudo de uma vez não muda nada. O que muda é tirar uma coisa por vez, na ordem certa — porque a ordem é o que separa arrumar a casa de apenas mudar os móveis de lugar.

Deixe seu e-mail e enviamos 12 subtrações, uma por semana. Cada uma leva menos de quinze minutos e remove do seu caminho algo que estava capturando você — começando pelo que custa menos e devolve mais.

Sem venda no meio, sem urgência fabricada, sem “últimas vagas”. Um clique cancela, e a política de privacidade diz exatamente o que fazemos com o seu email: mandamos isto, e nada mais.

A ordem das doze subtrações: as primeiras devolvem mais e custam menos.