A razão que engana: o bulverismo
A razão que engana: o bulverismo
⏱ 5 min de leitura
Existe uma jogada que se tornou tão comum que já quase não a percebemos — e é justamente por isso que ela é tão eficaz. Em vez de mostrar que uma pessoa está errada, mostra-se por que ela pensa daquele jeito: “você só acha isso porque é homem”, “porque é religioso”, “porque foi criado assim”, “porque tem esse ou aquele interesse”. A conclusão de que o outro está errado é dada como certa antes de qualquer prova; e todo o esforço se gasta a explicar a origem psicológica ou social do seu erro. C. S. Lewis batizou essa manobra com um nome que merecia ficar famoso: o bulverismo.
De onde vem o nome
Lewis inventou um personagem, Ezequiel Bulver, que aos cinco anos teria descoberto o segredo de vencer qualquer debate sem precisar raciocinar. Ouvindo os pais discutirem sobre geometria — a mãe dizia que dois lados de um triângulo eram maiores que o terceiro, o pai negava —, o pequeno Bulver percebeu que não era preciso saber nada de triângulos: bastava dizer à mãe “você só diz isso porque é mulher”, e a discussão estava ganha. Desde então, ironiza Lewis, a humanidade adotou o método. Primeiro se assume que o adversário está errado; depois se explica como ele chegou a esse erro. E, no meio do caminho, esquece-se de fazer a única coisa que importava: mostrar que ele de fato está errado.
Por que engana tão bem
O bulverismo é uma forma refinada da velha falácia genética — julgar uma ideia pela sua origem, e não pelo seu mérito. Mas é mais sedutor, porque veste-se de ciência e de lucidez: parece que estamos analisando fundo, quando apenas estamos fugindo do assunto. Ele engana por três motivos. Primeiro, porque a origem de uma crença nada diz sobre a sua verdade: posso acreditar que dois mais dois são quatro por motivos tortos, e ainda assim estar certo. Segundo, porque a mesma arma se vira contra quem a usa: se as suas ideias são explicadas pela sua criação e pelos seus interesses, as minhas também — e assim ninguém nunca tem razão, só tem causas. Terceiro, e mais grave, porque ele mata a conversa: quando o outro deixa de ser alguém que pode ter razão e vira um caso a diagnosticar, a busca comum da verdade acabou.
A arma preferida das ideologias
Não é por acaso que este é o instrumento favorito de toda ideologia. Ela precisa dispensar a fadiga de provar, e o bulverismo lho permite: em vez de refutar o adversário, decreta que ele fala do lugar da sua classe, do seu privilégio, da sua repressão, do seu preconceito — e, com isso, o silencia sem o ouvir. É a recusa antecipada travestida de análise. Repare como ela reaparece em todos os figurinos, de todos os lados do espectro: o rótulo colado na testa do outro que dispensa escutá-lo. Sempre que uma discussão se resolve descobrindo quem é o adversário em vez de examinar o que ele diz, o bulverismo está em ação, e a verdade saiu de cena.
O antídoto
O remédio é uma disciplina simples de justiça: primeiro estabelecer se o outro está certo ou errado, olhando o que ele diz; só depois — e se for útil — perguntar como chegou lá. A ordem é tudo. Enquanto não sabemos se uma afirmação é verdadeira, discutir a sua origem é pura fuga. É também um ato de caridade: tratar o interlocutor como alguém dotado de razão, capaz de verdade, e não como um sintoma a ser interpretado. Devemos ao próximo, no mínimo, a cortesia de o refutar de verdade, em vez de o dispensar com um rótulo.
O que fazer
- Quando quiser responder “você só pensa assim porque…”, pare. Primeiro mostre que o outro está errado; a explicação de por que ele erra só tem lugar depois — e talvez nem seja preciso.
- Vire a arma contra si: se você desqualifica as ideias alheias pela origem, as suas caem pela mesma regra. Ou vale para todos, ou não vale para ninguém.
- Trate quem discorda como alguém que pode ter razão. É assim que se busca a verdade em comum — e é o contrário do que faz toda ideologia.
Para aprofundar
- C. S. Lewis, Deus no banco dos réus — o ensaio “Bulverismo”, onde a manobra recebe nome e desmonte
- C. S. Lewis, A abolição do homem — a razão que se recusa a reconhecer verdades que a antecedem