O coração tem razões
O coração tem razões
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Poucas frases foram tão citadas e tão mal entendidas quanto esta, de Blaise Pascal: “o coração tem razões que a própria razão desconhece”. Costuma-se usá-la como desculpa para o sentimentalismo — como se Pascal dissesse que basta sentir, que o afeto vale mais que o pensamento. Ele dizia quase o oposto. Pascal era um dos maiores matemáticos do seu tempo, um gênio do rigor; ninguém suspeitaria dele de menosprezar a razão. O que ele viu, justamente por conhecer tão bem a razão, foram os seus limites — e a existência de um modo de conhecer mais fino, ao qual chamou “coração”, e que não é o sentimento, mas uma inteligência mais profunda.
Dois espíritos
Pascal distinguia dois modos de a mente funcionar, que chamou de espírito de geometria e espírito de finura. O espírito de geometria parte de poucos princípios, bem definidos, e avança passo a passo, encadeando demonstrações. É o método da matemática, e é admirável no seu domínio. Mas há coisas que ele não alcança, porque os seus princípios são muitos, sutis, e não se deixam isolar nem definir. Para essas, é preciso o espírito de finura: aquele que apreende um todo de uma só vez, que sente ao mesmo tempo mil fatores delicados que jamais poderiam ser enfileirados numa demonstração. Julgar uma pessoa, avaliar uma situação humana, perceber o tom de uma amizade, discernir o momento certo de uma palavra — nada disso se faz por geometria. Faz-se por finura, de um golpe de vista que vê o conjunto.
O erro do nosso tempo é querer aplicar a geometria a tudo, e desprezar como “subjetivo” tudo o que ela não alcança. Mas quem só tem geometria fica cego para metade da realidade — e para a metade mais importante, que é a das coisas vivas. As pessoas e as situações não são teoremas.
Os princípios que não se provam
Pascal notou ainda algo mais fundo, e decisivo para toda esta via: os primeiros princípios de todo raciocínio não são, eles mesmos, demonstrados. Que existe o espaço, o tempo, o movimento, os números; que o todo é maior que a parte — nada disto se prova, porque é a partir disto que se prova tudo o mais. E como os conhecemos, então? Não pela razão, que os pressupõe, mas pelo “coração” — por aquela apreensão imediata e certíssima que simplesmente vê que é assim. “Conhecemos a verdade não só pela razão, mas também pelo coração”, escreveu ele. A razão constrói sobre alicerces que ela não pôs e não poderia pôr. Toda a solidez do pensamento repousa, no fim, sobre coisas que apenas vemos.
O coração que percebe Deus
É desse mesmo saber que Pascal fala quando trata da fé. “É o coração que sente Deus, e não a razão. Eis o que é a fé: Deus sensível ao coração, e não à razão.” Não que a fé seja irracional — Pascal dá-lhe motivos, e dos mais argutos. Mas o conhecimento vivo de Deus, como o conhecimento vivo de uma pessoa amada, não se alcança por dedução, e sim por uma percepção mais íntima, que compromete o ser inteiro. Aqui a nossa via toca o seu ponto mais alto: o saber mais fundo do real é também o modo pelo qual o próprio Deus se dá a conhecer — não como conclusão de um silogismo, mas como presença acolhida pelo coração que se abre.
O que fazer
- Não trate como “mero sentimento” aquilo que é, na verdade, um conhecimento fino: a percepção de conjunto que capta o que nenhuma lista de razões capta. Aprenda a confiar na finura — depois de a educar.
- Reconheça que os seus raciocínios mais rigorosos repousam sobre coisas que você não provou, apenas viu. Isso não os enfraquece; ensina humildade.
- Cultive o coração no sentido de Pascal: não a emoção fácil, mas essa inteligência profunda que se apura no silêncio, na atenção e na oração — e pela qual Deus se deixa perceber.
Para aprofundar
- Blaise Pascal, Pensamentos — o espírito de finura e de geometria; o coração que conhece os primeiros princípios e sente Deus
- São João Paulo II, Fides et Ratio — a razão que reconhece os seus limites abre-se, e não se fecha, à verdade (vatican.va)