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Saber sem saber por quê

Saber sem saber por quê

5 min de leitura

Uma mãe sabe que o filho está mentindo antes que ele termine a frase. Um marceneiro experiente sabe que a madeira vai lascar, e não conseguiria explicar exatamente como sabe. Uma pessoa reconhece, ao fim de anos, que uma amizade é verdadeira, sem poder reduzir essa certeza a uma lista de provas. Todos nós conhecemos, e muito, dessa maneira: sabemos sem saber por que sabemos. Esse conhecimento é real — e não raro é mais seguro do que os argumentos que poderíamos alinhar para o justificar. E, no entanto, a nossa época o trata com desconfiança, porque não se deixa demonstrar. Esta seção é a defesa desse saber mais fundo, e o reconhecimento honesto de que a razão tem limites que ela mesma não fabrica.

Símbolos e coisas

Aqui está a distinção que você mesmo formulou, e que vale a pena tornar precisa. O raciocínio lógico trabalha com símbolos — conceitos, palavras, números — que representam os fatos, como um mapa representa o território. É um instrumento poderoso e indispensável. Mas um mapa nunca é o território: ele simplifica, recorta, deixa de fora tudo o que não cabe na sua escala. A intuição, ao contrário, lida mais diretamente com a coisa — pisa o território em vez de consultar o mapa. Por isso, tentar reduzir a um argumento aquilo que intuímos, pressentimos e vivemos nem sempre é possível: uma vida tem mais variáveis do que qualquer demonstração consegue segurar. Mesmo quando, de forma simplificada, se pode ir de A mais B até C, um raciocínio assim não abarca todas as variáveis de uma existência, e a certeza que oferece é sempre parcial. Não temos domínio sobre a realidade por supor que temos domínio sobre o pensamento.

Sabemos mais do que podemos dizer

Foi um cientista e filósofo, Michael Polanyi, quem cunhou a fórmula exata para isto: “sabemos mais do que conseguimos dizer”. Ele chamou a esse saber o conhecimento tácito. Reconhecemos o rosto de um amigo entre milhares, mas não saberíamos descrever a regra que usamos. Andamos de bicicleta sem saber enunciar as leis do equilíbrio que o corpo obedece. Julgamos o caráter de alguém por mil sinais que jamais poderíamos listar. Esse fundo tácito não é um resíduo a ser eliminado quando “melhorarmos” a nossa lógica; é o solo sobre o qual toda a lógica se apoia. Nenhuma demonstração parte do nada: ela sempre repousa sobre coisas que simplesmente vemos, sem as provar.

Não é irracionalismo

É preciso dizer com clareza, para não haver engano: nada disto é um convite a desprezar a razão ou a entregar-se ao sentimentalismo. É o contrário — é o cúmulo da razão reconhecer humildemente os seus próprios limites e as suas próprias raízes. As maiores inteligências souberam disto. Sabiam que os primeiros princípios de todo raciocínio não são, eles mesmos, provados — são vistos. Sabiam que o real é sempre maior do que o que dele conseguimos demonstrar. E sabiam, sobretudo, que existe um conhecimento que se dá por afinidade, por amor, por semelhança com a coisa conhecida — mais íntimo do que qualquer argumento. É também aqui que mora a fé: uma certeza que não nasce da demonstração, mas do encontro. A esse território, o mais fino de todos, dedicamos as folhas que vêm a seguir.

O que esta seção percorre

  • 3.1 · O coração tem razões — Pascal e o espírito de finura, que apreende o todo de um só golpe.
  • 3.2 · O senso do provável — Newman e a certeza real que nasce de mil indícios convergentes.
  • 3.3 · Conhecer por conaturalidade — Aquino e Maritain: conhecer pela afinidade, pela virtude, pelo amor.
  • 3.4 · A certeza precária dos sistemas — Taleb e os limites de todo modelo diante da vida real.

Comece por aquele que disse, numa frase, tudo o que esta seção desenvolve: o coração tem razões.


Para aprofundar

  • Michael Polanyi, A dimensão tácita — “sabemos mais do que conseguimos dizer”: o conhecimento tácito que sustenta todo saber explícito
  • Blaise Pascal, Pensamentos — os primeiros princípios que o coração conhece e a razão não demonstra

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