Ver a Deus face a face
Ver a Deus face a face
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Chegamos ao fim da via, e é justo que ela termine olhando para o alto — porque tudo o que dissemos sobre ver o real aponta para além de si mesmo. Começamos dizendo que a mente não é um espelho limpo, que enxergamos torto, que a lucidez é uma conquista. Todo o caminho foi um esforço para ver melhor: reconhecer as armadilhas, aceitar os limites da razão, cultivar a atenção e a humildade, viver a verdade. E, no entanto, seria uma última ilusão supor que, no fim desse trabalho, veríamos tudo. A verdade mais humilde e mais consoladora é esta: aqui, o nosso ver é sempre parcial. A visão plena não é uma conquista nossa — é uma promessa.
Como num espelho, de modo confuso
São Paulo disse-o de uma vez para sempre, numa frase que atravessa os séculos: “agora, vemos como num espelho, de modo confuso; depois, veremos face a face. Agora, conheço apenas em parte; depois, conhecerei totalmente, assim como sou conhecido”. Repare como a imagem do espelho, que abriu esta via, retorna aqui transfigurada. No começo, o espelho embaçado era o nosso problema — a mente que reflete mal o real. No fim, ele é a nossa condição inteira nesta vida: mesmo no nosso melhor conhecer, vemos como num vidro fosco, em enigma, em parte. Não é motivo de desespero, mas de humildade e de esperança. Toda a nossa ciência, toda a nossa sabedoria, todo o nosso ver mais límpido é ainda um reflexo — e reflexos apontam para o rosto que os projeta. O que agora conhecemos “em parte” será um dia conhecido “face a face”.
A sede que só Deus sacia
Foi Santo Agostinho quem deu o nome à sede que moveu esta via do princípio ao fim. Buscar ver o real, no seu fundo, é buscar a Fonte de todo o real — e por isso nenhuma verdade parcial jamais nos basta. “Fizeste-nos para Ti, e o nosso coração está inquieto enquanto não repousa em Ti.” A inteligência que percorreu estas páginas é essa mesma inquietação: uma sede de ver que não se sacia com nada aquém de Deus. E aqui esta via dá as mãos à do Descanso, que fecha esta Biblioteca: como ali se diz, todo repouso verdadeiro aponta para um só, o repouso da alma em Deus, para onde tudo caminha. O ver e o repousar encontram-se no mesmo termo. Descansaremos quando virmos; e veremos, enfim, quando O tivermos diante da face.
A Escritura promete mais do que um espetáculo. “Sabemos que, quando Ele se manifestar, seremos semelhantes a Ele, porque O veremos tal como Ele é.” Ver a Deus não será olhá-Lo de fora, como se olha um objeto; será sermos transformados por essa visão, tornados semelhantes ao que contemplamos — o cume do conhecer por conaturalidade que estudamos, quando conhecer e amar e ser, finalmente, coincidirem. É para isso que fomos feitos, e é isso o que a fé chama de bem-aventurança: a visão de Deus face a face, na qual a inteligência criada, tantas vezes enganada e sempre inquieta, encontra enfim o seu repouso e a sua plenitude. Toda esta via foi um pequeno aprendizado de ver, aqui na penumbra. A luz plena está guardada — e é uma Pessoa que nos espera.
O que fazer
- Guarde a humildade do “em parte”. Por mais que aprenda a ver melhor, o seu conhecer, nesta vida, será sempre um reflexo. Isso não é derrota; é a verdade que abre para a esperança.
- Reconheça, na sua sede de compreender, a sede de Deus. Nenhuma verdade parcial a sacia — porque ela só descansa n’Aquele que é a Verdade.
- Viva de olhos postos na promessa: aprender a ver o real, aqui, é preparar-se para a visão que nos aguarda — ver a Deus face a face, e n’Ele, enfim, ver tudo.
Para aprofundar
- Primeira Carta de São Paulo aos Coríntios 13,12 — “agora vemos como num espelho… depois, veremos face a face”
- Primeira Carta de São João 3,2 — “seremos semelhantes a Ele, porque O veremos tal como Ele é”
- Catecismo da Igreja Católica, §§ 1023—1029 — a visão beatífica, o ver a Deus face a face (vatican.va)
- Santo Agostinho, Confissões — “o nosso coração está inquieto enquanto não repousa em Ti”